quinta-feira, 14 de julho de 2011


Insano Paulo

Jair não sabia o que fazia ali, ou melhor, como o haviam convencido disso. Dias antes, após um surto mental daqueles que só quem vive numa megalópole como São Paulo sabe como é, mas nem sempre de onde vem, que ele resolveu seguir um conselho de um amigo de trabalho. “Jair, você está precisando de ajuda profissional!” Dizia ele.

Já dentro do consultório, vendo que Jair agarrava suas calças com suas trêmulas e suadas mãos, o doutor aproveitou para criar um clima de suspense. “Sabe o que é Jair! Você tem uma variação de uma síndrome não muito rara nos dias de hoje... mas não disse que sua síndrome não é rara hein, veja bem?!” O doutor ajeitou os espessos óculos.

‘Mas o que é doutor? Vamos, fale logo!’ Jair disse em seu íntimo, já que a danada da ansiedade segurou sua língua para bater seus dentes.

“Você já ouviu falar na Síndrome do Pânico, não?”

Jair fez que sim com a cabeça.

“Pois bem,” O doutor prosseguiu. “você tem a Síndrome do Homem São.”

“Síndrome do Homem São?” Jair repetiu franzindo a testa. “Mas que diabos é isso?”

“Você é muito são para essa cidade?”

“São?! São é você!” Jair retrucou indignado meio sem saber como dizer.

“Muito bem Jair, vou tentar me explicar melhor. Todos os seres vivos, incluindo nós, é claro, tendem a se adaptar ao seu meio. Seja de um jeito, seja de outro. Logo, se você é são e vive numa cidade de loucos como São Paulo, quem tem problema aqui e precisa de tratamento não são os outros, mas sim você.”

Naquele instante o mundinho de Jair desabou, afinal, ninguém ainda havia formado sua opinião sobre o assunto para ele rebater aquela afronta a altura. Seus olhos estavam longe, vencidos. O doutor, ao contrário, apoiado com seus dois cotovelos sobre a mesa batia as pontas dos dedos.

“Mas e então, Doutor? O que eu faço? Isso tem cura?” Jair voltou do transe e olhou para seu salvador, dando-lhe uma prescrição médica e esboçando um leve e sádico sorriso.

“Vai mais devagar, por favor!” Jair implorava momentos depois na garupa de uma moto.

“Aí chefia, já não te falei pro senhor que tudo o que você tem que fazer é deixar essa tua boca escancarada e gritar o quanto quiser?! A magrela é minha, quem tá dirigindo ela sou eu e não to aqui pra ouvir ninguém dizer como tenho que fazer meu serviço! Tu nem meu chefe é?!” Dizia o motoboy costurando Deus, seu chefe e o mundo na Marginal Pinheiros em pleno rush de final de tarde.

“Você não sabe que morrem dois motoboys por dia em São Paulo?” Jair tentou um último apelo.

“Morrem dois e chegam mais mil!” O motoboy se divertia. “Além disso, não sou motoboy, sou mototaxista!”

A viagem foi curta para desespero de Jair, mas assim que avistou o Estádio Cícero Pompeu de Toledo ele deu graças aos céus, pois pensou seriamente que seu destino final fosse alguns metros antes, dentro de um hospital que tem o nome de um famoso físico. Jair só foi se recompor do susto numa barraquinha Mimi em frente ao estádio. “Água aqui não tem não doutor, mas te faço duas biritas pelo preço de uma! É tiro e queda!” Disse o barman de Paraisópoles colocando o pequeno copo em cima do balcão improvisado.

Jair aceitou a oferta e uma outra logo depois quando lhe ofereceram uma camisa do Corinthians. Ele nunca havia torcido por time algum, mas como o jogo era entre Corinthians e São Paulo acabou optando pelo primeiro. O jogo foi muito bom, diga-se de passagem, pena que Jair não viu, pois foi barrado na catraca depois de ter comprado o ingresso com um cambista duvidoso. Mas se ele não viu o jogo, tampouco viu o arrastão que fizeram na saída do estádio depois da pelada.

Talvez por isso não tenha se desanimado, pois naquela mesma semana Jair se matriculou numa academia de ginástica. Peito, pernas, braços, costas, abdominal. ‘Mas que chatice!’ Não cansava de se comparar a um rato de laboratório disputando força com cavalos. No entanto, até que aquilo fez bem a Jair, pois, resolveu aproveitar uma noite enluarada numa baladinha da Vila Madalena. Cortou a cidade e o trânsito inteiro por baixo e na falta de gosto musical, optou pela casa mais movimentada. ‘Cheia, barulhenta e mal cheirosa!’ Pensou assim que entrou, mas rapidamente mudou de idéia ao ver os belos pares de saia que iam e vinham. Dessa vez Jair nem pensou em pedir água e foi direto para a birita.

Com dor de cabeça e diante de um feriado prolongado devido ao aniversário da cidade, Jair resolveu fazer algo que não fazia há muito tempo, antes, porém, precisava pagar uma conta. Achou que seria rápido, mas a fila acenava o contrário já da porta do banco. ‘Caramba!’ Se angustiava. ‘Sol brilhando, a praia logo ali... e eu aqui!’. No entanto, ele não se intimidou, muito pelo contrário, seus olhos faiscaram. E apontando para o final da fila berrou para quem quisesse ouvi-lo.

“Aquele senhor ali está furando fila!”
Um alvoroço se formou dentro do banco e enquanto todos se cotovelavam para ver o infrator, Jair, de fininho, saiu de onde estava e foi andando de costas até o mais próximo que conseguiu chegar do balcão de atendimento. Quando todos, frustrados, começaram a se virar de frente para o balcão novamente, ele se infiltrou na fila como num passe de mágica. “Quanta barbaridade!” Ainda comentou com uma senhora às suas costas.

Jair saiu do banco se sentindo vivo, livre, mas logo o congestionamento na Avenida dos Bandeirantes, a lentidão no acesso para a Rodovia dos Imigrantes, a praça de pedágio de R$20,00 e a serra parada o fizeram mudar de idéia rapidamente. Logo aqueles pensamentos poluídos esvaíram-se de sua mente ao ver as belas luzes da cidade de Santos. ‘Como a cidade cresceu...’ deslumbrou-se.

Meses depois, Jair decidira que já era tempo de enfrentar o seu temor. A causa do efeito. Tocou duas vezes a campainha da casa de sua irmã. O barulho dos passos correndo pela sala o fez estremecer, mas ele segurou firme a barra.

“Tio!” Seus três sobrinhos endiabrados o aguardavam.

“Estão prontos?” Os três correram para dentro do carro.

E lá de cima de um brinquedo chamado Elevador, com uma cara tão apavorada quanto a dos seus sobrinhos, Jair se segurava com todas as suas forças para não cair antes do carrinho. Momentos antes, o monitor do brinquedo falou num tom vil.

“Peço a todos muita atenção e caso alguém desista no meio do caminho, levantem seus dois braços, cruzem os punhos na altura da testa e eu prometo descer vocês o mais rápido possível!”

Foi ali, naquele parque de diversões que fica na Rodovia dos Bandeirantes, onde todos os atendentes tem de forçar um sotaque engraçado para fingirem que são de outro país, que o tal do doutor, que há muito não o via, o viu pela última vez. E ao notar a expressão de angústia de Jair, lembrou de sua prescrição médica e riu consigo mesmo.

“Ah! A insanidade! Como seríamos felizes sem ela?”


E. Straub

sábado, 2 de julho de 2011


Esperança Recôndita

Enfim a liberdade! Como ela gostava de estar livre por aí, sair de sua clausura e seguir para casa. A sua casa! Será que seus irmãos também estariam por lá? Bom, isso pouco importava para ela, se é que alguma vez importou. O que ela queria mesmo era percorrer por todas aquelas ruas atarefadas, se esticar um pouco e viver. Ela não se importava com as multidões, tampouco desejava se juntar a elas. Para ela, ser uma mera expectadora já bastava. Afinal, ela também era uma cidadã e merecia ser tratada com dignidade.

Por se sentir como parte daquele todo, resolvera deixar seus instintos aflorarem no verde que cobria o topo dos arranha-céus. Estes, que se antes pareciam engolir as cidades, hoje se harmonizavam com as demais obras divinas, como se tivessem sido desenhadas pelo próprio Criador. Era verdade que os telhados de outrora contribuíam para o aquecimento do mundo, no entanto, o mesmo não ocorria naquela cidade, pois os telhados gramados ajudavam a suavizar o calor e melhorar o frescor dos finais de tarde.

Depois de rabiscar com os pés a terra que produzia nutrientes para a grama se desenvolver, ela retomou seu percurso, mas não sem antes se admirar num daqueles vidros que cobriam os edifícios. Ao ver sua face refletida, mal teve tempo de recordar que há pouco estava do outro lado, observando o contraste da monotonia hipnótica das poucas nuvens que cobriam o céu com o andar trombado dos transeuntes, sempre aflitos, sempre com pressa. Mal se recordou que alguém entrou em seu recinto e lhe entregando um bilhete a pôs para fora, para a liberdade. Muito agradecida ela ficou, mas pouco demonstrou.

Algo em que ela nunca havia reparado fora na utilidade daqueles arranha-céus envidraçados. Os vidros não serviam somente para a estética, para embelezar a arquitetura moderna, os vidros também tinham outra utilidade, eles captavam a pouca luz solar que adentrava pela atmosfera terrestre e a transformava em energia. Como se os edifícios também tivessem vida e aquele fosse seu alimento.

Pouco abaixo, passando pelas ruas incrivelmente limpas, ela se deteve num daqueles locais onde informações são vendidas e a comida é farta. Juntou-se a dois homens distintos, que discutiam em meio a imagens holográficas coisas que não entendia. “Antigamente se usava um substrato das árvores para fabricar um material chamado papel. Nele, eles imprimiam tinta, juntavam algumas folhas e propagavam as últimas notícias do mundo.” Dizia um deles ao outro, boquiaberto, que tentava imaginar a equação insolúvel de quantidade de lixo produzido e matéria prima exaurida.

Realmente, lixo era uma coisa que não se via naquela cidade. O que era descartado não virava lixo, virava resíduo e esse resíduo era separado do jeito que seus avôs haviam ensinado a seus pais. Todo ele era levado para locais específicos nas calçadas, onde dutos muito bem sinalizados percorriam todo o subterrâneo da cidade até chegarem a uma central recicladora. O cidadão tinha apenas que abrir o duto correspondente ao resíduo, jogar o que seria descartado gargalo adentro e deixar que o ciclo se fechasse.

Um pouco cansada e vendo que o dia ameaçava uma despedida, resolveu se apressar passando rápida e invisível por todo o caminho que cortava a cidade para chegar ao local que os abastecia. Plantações de sumir de vista formavam um anel verde ao redor da cidade. E de cima de uma das poucas árvores que não os agraciavam com frutos, ela olhou para o espetacular perfeccionismo das máquinas, que mantinham incansavelmente tudo aquilo vivo. Nenhuma pessoa colocava as mãos nas plantações, tudo era feito por robôs bem programados. A irrigação vinha por baixo. Enormes receptáculos de água permaneciam abaixo de toda a cidade. Eles eram abastecidos pela água da chuva, que precisava ser tratada por ser considerada ácida demais, e por poços muito profundos, que transpassavam as rochas sãs que a poluição de outros tempos não conseguiu se infiltrar. Não havia rios atravessando a cidade, mas pontos de água foram equilibradamente colocados. A água sempre fora o elemental mais importante para a vida e por isso a necessidade de sempre tê-la por perto.

Aquele local era tão bom e tão relaxante, que ela resolveu se recostar e passar uma última noite agradável ao relento. Já no dia seguinte, após se fartar de frutos pela manhã, chegou ao seu destino. Quem será que a receberia? Nem ao menos essa pergunta ela se fez durante todo o percurso. No entanto, com lágrimas nos olhos, um homem a pegou delicadamente em suas mãos e a abraçou. Ela não retribuiu o abraço, mas pode sentir todo o seu afeto. Ela se calou e cerrou os olhos por uns instantes para apreciar melhor aquele momento. Como era bom estar em casa de novo. Só então o homem pegou o bilhete, leu-o e, após uns instantes, beijou sua face. Com todo o cuidado do mundo ele a pôs num recipiente a vácuo e lançou-a na atmosfera.

Voando para bem longe da redoma de vidro que recobria toda a cidade e que a protegia dos raios nocivos do Sol. Fazendo o papel de uma das camadas atmosféricas que fora destruída há muito. Ela batia suas asas, sentindo-se totalmente liberta, avistando, sem entender, todos aqueles inúmeros cata-ventos e painéis solares que se somavam ao abastecimento de energia de toda aquela cidade. Outro homem, que a tudo observava, quebrou o silêncio.
“Você sabia que há mil anos os pombos eram considerados sujos?”
Ao que o outro, vendo-a partir e a esperança retornar, sorriu.


E. Straub