domingo, 19 de setembro de 2010

Certa Vez Alguém Escreveu...


Juréia das lindas matas e cores,
Dos lindos pássaros e cantos,
Dos verdes morros protetores,
Das brisas suaves de verão,
Das águas limpas e claras,
Das areias brancas e macias,
Do celestial azul do céu,
Do oceano em sua pureza,
Dos carcarás e dos ares,
Das tartarugas e dos mares,
Das preguiças em embaúbas,
Dos encontros e encantos,
Do silêncio interior,
Da paz da alegria,
Da amizade nas palavras,
Da plenitude da vida,
Da imensidão no aconchego,
Da harmonia complacente,
Vivendo ternamente,
Profunda e eterna,
No coração de nossas almas.


E. Straub
(Seguindo a voz do coração...)

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Minha Amada Boracéia


Oh! Minha amada e idolatrada Boracéia,
Com teus morros soberbos,
Teu céu azulado,
Tuas areias pisadas,
E tua água cristalina.

Local propício à vida.
Onde pássaros piam ao amanhecer,
E urubus esvoaçam ao entardecer.
Onde o Sol dá lugar à lua,
Numa explosão cósmica e celestial,
Com estrelas como seu pano de fundo. 

Oh! Minha amada e idolatrada Boracéia,
Com tuas ondas gorducheiras,
Longas e cansativas.
Onde pegar a onda certa,
Significa bambear as pernas. 

Nunca uma onda foi tão cordial e amorosa
Para com os surfistas merrequeiros.
É a onda da fraternidade!
Onde surfistas de mãos dadas
A surfam desde a última arrebentação,
Até o mais longínquo dos guarda-sóis.
Lá onde o Bezerra faz a curva.
Formando uma corrente humana,
A corrente dos desgarrados e desgraçados surfistas,
Que pregueiam suas ondas com pranchas e mais pranchas. 

Oh! Minha amada e idolatrada Boracéia,
Que descanse em paz agora.
E espere por mim,
Com a chegada de uma nova frente fria,
Quando não puder optar,
Por nenhuma outra opção.

  

E. Straub

Primeira Conferência Internacional GBC Brasil

O Green Building Council Brasil, criado em março de 2007, é uma organização não governamental que surgiu para auxiliar no desenvolvimento da indústria da construção sustentável no País, utilizando as forças de mercado para conduzir a adoção de práticas de Green Building em um processo integrado de concepção, construção e operação de edificações e espaços construídos.
 

O GBC Brasil é um dos 21 membros do World Green Building Council, entidade supranacional que regula e incentiva a criação de Conselhos Nacionais como forma de promover mundialmente tecnologias, iniciativas e operações sustentáveis na construção civil.

 

O GBC criou então uma certificação chamada LEED (Leadership in Energy and Environmental Design) e a partir dela desenvolveram certificações para diversos empreendimentos da construção civil. Entre eles estão o LEED for New Constructions, LEED for Schools, LEED for Homes, LEED for Neighborhood Development, LEED for Existing Buildings - Operation and Maintanance, LEED for Core and Shell, LEED for Commercial Interiors, LEED for Retail (para lojas e hospitais). Eles diferem entre si na forma da abordagem para cada empreendimento e de se pontuar, mas o escopo é o mesmo para todos. Para tanto, cada documento LEED é dividido em 6 blocos, cada qual com um diferente propósito e pontuação. Eles são:

 

1.       Site Sustentável


2.       Eficiência para Consumo de Água


3.       Eficiência Energética e Atmosfera


4.       Materiais Recicláveis


5.       Qualidade do Ambiental Interior


6.       Inovação e Projeto

  Dia 01/09/2010 

As palestras iniciaram com o presidente do GBC Brasil, José Moulin Netto, falando do início do GBC Brasil e de como ele chegou a ser o que é hoje no Brasil.

 

Após ele, diversos outros palestraram, mas vou resumir alguns pontos que, ao meu ver, foram bem interessantes e importantes.

 

Nelson Kawakami – Diretor Executivo do GBC Brasil

 

A visão do GBC é a de educar, informar, se relacionar e fomentar, para só então certificar. A certificação é um facilitador para a compreensão do Meio Ambiente.

 

                Todo o investimento feito no empreendimento costuma retornar em 3 anos e após isso, os investidores tem apenas a lucrar com o baixo consumo de energia, água e aumento da produtividade dos funcionários por criar um ambiente mais adequado ao trabalho.

 

Hoje o GBC Brasil tem 201 processos para certificação LEED e já existem 19 projetos certificados.

 

Eduardo Jorge – Secretário da Prefeitura de São Paulo

 

Antes havia somente o equilíbrio social e econômico, hoje tem de haver equilíbrio com o meio ambiente também.

 

A cidade de São Paulo tem 11 milhões de habitantes e produz 17 toneladas de lixo por dia. São Paulo é uma das únicas cidades no Brasil que recolhe todo o seu lixo.

 Scot Horst – Vice Presidente do GBC 

O Scot Horst falou muito sobre liderança e fez muitas questões do porque não se construir de forma sustentável. Falou que precisamos nos engajar nessa causa, criar normas, criar líderes e disseminar para a população em geral.

 

Ele também falou sobre a qualidade do ar em ambientes internos, que pode se tornar um agravante para a saúde de todos se não for bem tratado. Ainda mais se o ambiente externo se tornar hostil o suficiente para termos que viver a maior parte do tempo dentro de edifícios.

 

Márcio Santa Rosa – Coordenador do Fórum Ecológico dos Jogos Olímpicos a ser realizado no Rio de Janeiro.

 

                Ele falou sobre algumas premissas em relação aos investimentos no Rio de Janeiro para os Jogos Olímpicos a serem focadas e dentre elas estão:


1.       Ambiente econômico favorável


2.       Criar ambiente logístico adequado


3.       Há demanda ascendente no mercado tecnológico da construção civil


4.       Marco regulatório e sistema de normatização estabelecidos


5.       Momento positivo para a construção civil


6.       Percepção para investimentos


7.       Desenvolvimento estratégico

 

Klaus Bode – Fundador do BDSP

 

Mostrou um caso de projeto sustentável e falou da importância de se haver uma comunicação maior entre projetistas, arquitetos, engenheiros e consultores ambientais. “As vezes não é necessário criar e introduzir tecnologias, com uma simples conversa entre arquitetos e engenheiros já podemos reduzir e muito qualquer forma de desperdício.”

 

Kent Peterson – Ex-Presidente da ASHRAE (normas técnicas)


               


Falou sobre as normas ASHRAE e principalmente sobre a 189.1. Falou de como é importante o comissionamento e de que temos de garantir que o empreendimento está respeitando em 100% o projeto.

 

Um ponto que achei bem interessante, foi quando ele disse que o que é bom para o EUA pode não ser tão bom para o Brasil e que, portanto, deveríamos criar nossas próprias normas.

 

Lair Krähenbühl – Coordenador dos projetos do CDHU

 

Falou que antes eles não se preocupavam muito com a qualidade dos empreendimentos, mas que agora eles tem feito o possível para conseguir dar o mínimo de conforto aos usuários. Mesmo porque, fazendo dessa forma, eles evitam os desperdícios e contribuem para o meio ambiente.

 

Paulo Freire – Vice Presidente da Johnson Controls BE Brasil

 

Falou da reforma do Empire State Building. De que parte da economia de energia do edifício foi feita com troca de materiais e equipamentos, mas que se não houver uma conscientização por parte dos usuários, essa economia não será como o esperado.

 

Jay Bhatt – Vice Presidente Senior da Associação de Arquitetura e Engenaria dos EUA

 

Falou muito sobre as necessidades brasileiras, de que precisamos de investimentos na faixa de 85 bilhões de dólares em infraestrutura e 26 bilhões de dólares para melhorar os processos industriais.

 

Falou também dos nossos desafios para agora na questão do consumo consciente de água, do crescimento populacional e consequentemente da demanda e de fazer regulamentos sustentáveis.

 

Laura Lesniewski – LEED AP

 

Falou sobre um caso de um tornado que destruiu uma cidade americana e de que como os moradores, numa ação em conjunto, refizeram a cidade que é modelo de sustentabilidade em todo o mundo. Foi pensado desde a concepção da cidade até o material utilizado nas casas.

 

Outro dado interessante que ela deu, foi de que se todos no mundo vivessem da mesma forma de que um norte americano vive, hoje precisaríamos de 5 planetas para viver.

  Dia 02/09/2010 

No segundo dia haviam 5 salas que falavam de temas diferentes sobre sutentabilidade. Esses temas eram pré-escolhidos no momento da inscrição. O tema que eu escolhi foi sobre Recursos Hídricos e abaixo segue algumas das palestras que ocorreram naquele dia.

 Wilson Passeto 

Falou sobre o uso racional da água, de que temos de ter educação, saber gerir ela, que envolve cuidado, solidariedade e co-responsabilidade por parte de todos.

 

Levantou a questão do porque não desenvolvemos as cidades primeiro ao invés de investirmos em petróleo e mineração. Falou de nossas prioridades e de que ao seu ver elas são:

 

1.       Água


2.       Uso do Solo Urbano


3.       Resíduos


4.       Materiais


5.       Energia

 

Falou também de que qualidade garante durabilidade e que a durabilidade dos materiais na construção civil tem de ser no mínimo de 30 anos.

 

Virgínia Dias Sodré – Diretora Comercial da Infinity

 

Palestrou sobre o reaproveitamento das águas de chuva. Definiu o que é água pluvial e água de chuva e nada mais é que a água de chuva é a água que cai, já a água pluvial, a água que entra em contato com o chão e, portanto, pode se contaminar.

 

Ela falou também sobre sistemas para captação e reuso de água e de uma tecnologia surgindo no mercado chamada de MBR (Membrana Bioreactor), que são umas peças de plástico parecidas com uma rosca, onde são inseridas num determinado momento no tratamento da água e a função dela é a de formar nichos de bactérias.

 Oswaldo de Oliveira Júnior               

Falou sobre os sistemas de medição de água e de que devido a pressão na tubulação de uma edificação é maior que numa residência, seu consumo também é maior.

 

Falou também que as medições tem de ser individualizadas, pois só assim o indivíduo dará mais valor ao produto que ele recebe.

 

Marco Yamada – Representante da Deca e Duratex

 

Falou sobre os diferentes ambientes numa residência e da relação do consumo para eles em diferentes tipos de empreendimentos.

 

Marisa Plaza – Coordenadora Técnica da Falcão Bauer

 

Falou sobre o selo Falcão Bauer que visa identificar produtos com o menor impacto ambiental, seguindo as normas técnicas de manufatura do produto. Explicou também o processo que eles fazem para dar a determinado produto seu selo.

 

Newton Figueiredo – Presidente do Grupo Sustentax

 

Explicou sobre o selo que sua empresa desenvolveu e que a baixa produtividade e o desperdício são os dois maiores inimigos da sustentabilidade. Falou também na mudança do conceito de marca e selos, de que antigamente o consumidor comprava algo pela marca, hoje ele exige que o produto tenha certificações e garantias.

 

As categorias que levam eles a dar seu selo para um determinado produto são:


1.       Salubridade


2.       Qualidade Comprovada


3.       Responsabilidade Social


4.       Responsabilidade Ambiental


5.       Comunicação Responsável

 

Manuel Carlos Reis Martins – Processo Aqua

 

O Aqua, assim como o LEED, é uma certificação para empreendimentos que visam a sustentabilidade. Originalmente ele veio da certificação francesa HQE e foi adaptado para o sistema brasileiro.

 

Solange Nogueira – Gerente do Procel Edifica

 

O PROCEL promove o uso racional da energia elétrica em edificações desde sua fundação, sendo que, com a criação do PROCEL EDIFICA, as ações foram ampliadas e organizadas com o objetivo de incentivar a conservação e o uso eficiente dos recursos naturais (água, luz, ventilação etc.) nas edificações, reduzindo os desperdícios e os impactos sobre o meio ambiente.

 

O consumo de energia elétrica nas edificações corresponde a cerca de 45% do consumo faturado no país. Estima-se um potencial de redução deste consumo em 50% para novas edificações e de 30% para aquelas que promoverem reformas que contemplem os conceitos de eficiência energética em edificações.

 

Buscando o desenvolvimento e a difusão desses conceitos, o Procel Edifica vem trabalhando através de 6 vertentes de atuação: Capacitação, Tecnologia, Disseminação, Regulamentação, Habitação e Eficiência Energética e Planejamento.

 

Péricles Arilho – Vice Presidente da BRAMEX

 

Falou sobre o UL – Underwriters Laboratories, que vem testando produtos e escrevendo normas técnicas para a segurança de todos.

 

Juliana Malho – LEED AP – Representante da Cushman & Wakefield

 

Apresentou um caso de um shopping feito de forma sustentável no interior de São Paulo, dos problemas enfrentados e de como foram solucionados.

  Todas as palestras em si foram bem interessantes, mas o mais importante foi perceber como os diferentes setores da economia da construção civil no Brasil e no mundo estão vendo e se mobilizando para tratar sobre esse assunto tão importante que é a sustentabilidade. Esse é o futuro da construção civil e quem não agir de forma coerente e sustentável estará automaticamente fora do mercado.

Olhos Mágicos

“É essa!” Peguei firme com as duas mãos uma 6’3’’ degrade verde e amarela nos fundos da casa de alguém que se dizia um feitor daquelas maravilhas.

“Seu pai sabe que você está aqui?” Um amigo mais velho, que se tornaria meu cúmplice e exemplo, me olhava desconfiado, se certificando de que toda aquela história não acabasse sobrando também para ele.

Foi assim que iniciei minha vida perto das ondas, lugar onde nunca mais desejei me afastar. Na verdade, ela tinha se iniciado dois meses antes, em dezembro de 1994, revezando uma prancha emprestada numa praia incrustada no meio do litoral norte paulista com mais três amigos, que o tempo mostrou não terem tido a mesma sintonia com o mar.

O que realmente me levou a amar esse esporte não sei ao certo, mas a liberdade e o misticismo que o cercam foram fatores fulminantes. Eu podia simplesmente sair flutuando mar afora em cima apenas de uma tábua de poliuretano revestida com fibra de vidro e, quando voltasse moído para casa, poderia ler sobre histórias de lendas como Eddie Aikau ou heróis não identificados despencando de morras gigantes em Waimea Bay ou sendo encobertos pelo lip assustador de Pipe.

Mas voltando a liberdade, quando estava lá fora, sentindo a ondulação passar por mim, eu me esquecia de qualquer problema que pudesse ter. No céu, minha visão era disputada pelo voo de albatrozes, gaivotas e urubus, na água, apenas a linha do horizonte me interessava, tentando antever alguma onda que passasse despercebida, vindo com meu nome escrito nela.

Claro que no início ainda não possuía olhos de surfista, estes viriam com o tempo, mas era esperto o suficiente para saber me guiar pelos mais experientes. E uma das primeiras coisas que aprendi foi remar quando via os outros remando e, principalmente, em dias grandes, quando enxergar uma onda mais atrás fica complicado. Essa estratégia já me salvou inúmeras vezes de ser esmagado e de me dar uma estranha coloração roxa, quando ficar parado, vendo outros surfistas saindo em disparado para o outside, pode significar uma péssima opção. E faço um adendo de que quanto mais desesperados eles remavam, mais desesperado eu remava também.

Difícil também era enxergar se o mar estava realmente bom ou não, afinal, o importante era estar lá, sentindo aquela liberdade, longe de tudo e todos, em perfeita harmonia com a natureza, e por isso, os olhos que sempre chegam antes dos de surfista e podem ou não continuar ao longo da vida são os olhos mágicos. Estes sim são os que nos fazem apreciar cada segundo em cima de uma prancha ou de alguma outra atividade que amemos fazer. Fosse o tempo que fosse, o frio que fosse, o mar que fosse, o crowd que fosse, eu sempre estava lá conferindo, surfando com um sorriso largo estampado de face a face, admirando a magia com que a natureza formava cada onda.

Internet?! Quem precisa de internet quando se tem imaginação? Quando se tem olhos mágicos? Naqueles tempos a internet estava nos primórdios e pensar que um dia poderíamos ver uma ondulação entrando em tempo real do outro lado do mundo era surreal. Portanto não era difícil entender o porquê passava horas e horas dentro da sala de aula imaginando o quão perfeito o mar deveria estar e, se não bastasse imaginar, eu tinha que eternizar aqueles momentos nos meus cadernos. Em todos eles. Não me importando se eram apenas esboços, pois meus olhos mágicos davam cor, forma e movimento para os mesmos.

Um dia, quando ainda me vangloriava de fazer uma sessão de surf sem acertar com minha prancha um único pobre infeliz sequer e meu maior pesadelo era sonhar que eu não conseguia mais ficar de pé para deslizar reto numa onda já tentando virar na base, costumava perguntar humildemente a surfistas, cujos cabelos grisalhos delatavam sua experiência. “Como você faz para ir mais rápido na onda?” De vez em quando um daqueles senhores de pranchões bem que tentava alguma explicação, mas como em tudo o que você tenta conversar mais seriamente no mar, sempre acabava num “Você pega com o tempo!”, já me fazendo a boia para pegar a de trás.

Mas não é que eles estavam certos e eu aprendi a acelerar antes mesmo de dominar por completo a arte de permanecer sentado na prancha?! E logo, aqueles mesmos surfistas que eram antes pegos de surpresa em meio a tanta indagação, se viam rendidos a velocidade com que um garoto com força de vontade pode evoluir. Três meses depois já ensaiava um cut back e seis meses depois já estava acertando a primeira batida. Eu nunca tive o surf de um garoto prodígio, aliás, anos mais tarde, percebi que nunca fui o melhor no que me propus a fazer, mas sempre me destaquei. Por conta disso, hoje sei que cometia e ainda cometo muitos erros na minha linha, mas eles, perto da vontade com que encaro as ondas são meros coadjuvantes.

Com o meu surf numa evolução constante, era natural querer sair e desbravar outras ondas. Por isso, minha primeira surf trip fora escalar algumas pedras e me jogar no mar da praia ao lado. Vestindo um short john, acordei um amigo as 5:30h de uma manhã fria de inverno, com o orvalho da grama queimando nossos pés, para podermos aproveitar o quanto pudéssemos do terral e da solidão congelante. Fora numa manhã assim que vi pela primeira vez uma parede líquida cristalina me encobrir para segundos depois me arremessar paralisado e maravilhado para o fundo do mar.

Mas aquilo havia sido o bastante e meu sangue passou a fervilhar todos os dias que via que o mar podia me proporcionar aquela sensação novamente. “Quero ser um tube rider!” Dizia sempre sem ao menos saber o que significava a palavra “rider”. Aliás, essa não foi a única palavra que aprendi nesse novo meio e após certo tempo já tinha enriquecido e muito minhas expressões e gírias. Tanto que quase me tornei incomunicável. Mas ao contrário da minha dificuldade de me expressar verbalmente, meu surf fluía de vento em popa e quando vi um surfista dando um 360º numa junção de respeito, mudei totalmente minha visão do surf. Pelo menos foi até eu quebrar acidentalmente minha quilha do meio e perceber que essa manobra é um mero truque. Mas e daí? Quem sabia disso?

E assim que fui me desenvolvendo ao longo dos anos, mas ao mesmo tempo em que meu surf evoluía e meus olhos de surfista eram aprimorados, sem perceber, fui perdendo uma coisa importantíssima para mim. Como se aquela frase de que não se pode ganhar algo sem perder algo fosse a maior verdade do mundo. Comecei a ficar mais crítico em relação ao mar e as mesmas ondas que antes sempre me pareceram perfeitas, começavam a se apresentar não tão boas. Os invernos começaram a ficar mais frio a cada ano, o vento parecia nunca mais acertar e as ondas sempre gorduchas ou fechadeiras. Nem vou mencionar o fundo, esse sim parecia que deixou de colaborar de vez. E um dia, sentado num banco feito de um tronco de árvore de frente para o mar que me acolheu, perguntei para um amigo o que será que tinha acontecido. “Por que antes era tão melhor que agora? Deve ser o efeito estufa estragando o mundo inteiro ou a irresponsabilidade das pessoas construindo casas na orla e ameaçando as praias brasileiras?” Tudo isso tem sua razão, mas a bem da verdade, e que me dei conta só um tempo depois quando meu desejo de surfar havia se tornado mais uma mera obrigação, é que tinha perdido o brilho dos meus olhos ao ver uma onda. Eu havia perdido meus olhos mágicos.

Quando percebi isso me senti péssimo, mas de alguma forma entrar a fundo dentro de mim foi também minha salvação. Eu tinha então duas possibilidades. A primeira era a de me esconder de mim mesmo e a segunda era a de sair em busca dos meus olhos mágicos novamente. Eu não tive dúvidas, juntei o pouco de grana que ainda me restava no banco, dei uma geral na casa e recomendações para um vizinho continuar dando comida e água para um gato que vivia e ainda vive ali para fazer uma surf trip. A primeira internacional. O local escolhido? Costa Rica é claro! O filme de Bruce Brown, Endless Summer II, tinha me feito sonhar acordado por muito tempo para esquecê-lo e a expressão de felicidade de Pat O’Connel mandando ver em Playa Negra e Roca Bruja junto com Wingnut para mim já era o suficiente. 

(continua...) 

E. Straub