sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Leleco

Mais um dia na praia do Coquinho! Sol escaldante, merrecas força barra, metade dos banhistas na água e a outra metade se espremendo e querendo entrar. Na areia, quente e branca, onde guarda-sóis se aglomeram por toda parte, gatas circulam e desfilam por toda sua extensão enquanto que os marombados se concentram em apenas um. O verão ia a pino e aquela praia em forma de ferradura do litoral norte paulista fervilhava no ritmo das férias escolares.

“Leleco?! Põe o guarda-sol para mim?” Uma gata suplicava já fazia algum tempo debaixo da torre salva-vidas de onde Leleco observa atentamente aos que se aventuram mar adentro. Prezando a vida das pessoas que buscam relaxar em mais um dia abençoado. Bom... isso era o que as pessoas pensavam, pois as potentes lentes de seu binóculo não apontavam para os garotos endiabrados driblando suas mães em direção ao mar ou mesmo para aquela velha senhora que não fora alertada que aquela praia era praia de tombo, mas sim, direto para o line-up, onde cada onda era disputada no braço, bico por bico.

“Hã?!” Ele olha para baixo na milésima vez que a garota tenta falar com ele, entre uma série e outra.

Havia pelo menos outras 4 torres salva-vidas ao redor da praia, mas aquele pedacinho, em especial, era o mais cobiçado. Se a ondulação vinha de Sul e o vento de leste, e quando o fundo ajudava, as ondas ficavam de gala e era exatamente estes momentos que Leleco aguardava do seu “ponto de observação”, como costumava falar. Cara gente fina, sem rixa com ninguém, tinha os olhos sempre voltados para o mar, sua grande paixão.

“Xá cumigo!” Num pulo, se jogou do alto da torre para se espatifar na areia.
“Você está bem? Por que não desceu pelas escadas?” Perguntou a incrédula garota.
“Podicrê! Achei que já tinham instalado meu corrimão de bombeiro... essa de salva-vidas não é fácil, né!” Disse para arrancar suspiros de suas observadoras de plantão.
“Ei Fiel!” Alertou. “Dá um grau aí que eu já venho!”
‘Você disse Fiel ou Fidel?’ Um cão de orelhas caídas olhava para trás para ter certeza que era realmente com ele. ‘Epa! Parece que ouvi errado meu nome de novo!’ Corrigiu sua postura latindo de prontidão. Fidel, assim como Leleco, também amava o mar, mas ao mesmo tempo temia ele.

“Leleco?! Aqui!” A gata, já se sentindo esquecida novamente, sinalizava para o salva-vidas que dialogava com um cachorro.

Leleco deu alguns passos no meio de tanta gente e fincou com firmeza o guarda-sol na areia sem ao menos ver onde o fazia e ouvir o grito de dor de algum desavisado de plantão que se enterrara na areia para tirar um cochilo.

‘Preciso voltar para o observatório!’ Pensou no que seria um ato de responsabilidade se referisse como seu observatório o local para zelar pela segurança de todos e não um local para observar as condições de surf. Acontece que mal deu 3 passos e outra gata o parou com o mesmo propósito, mas com outra tática.

“Leleco! Passa protetor nas minhas costas... eu não consigo sozinha...”

A gata, que bebericava um suco de limão que deixava numa mesinha ao lado, se virou de costas e retirou a alça superior do biquíni. Por sua vez, Leleco se ajoelhou e começou a passar o protetor em suas costas. “Ai... como está bom... que mãos firmes vc tem Lelê!”

“Bote fé!” Dizia ele que não desgrudava os olhos da seriezinha que estava entrando no outside. E se não bastasse tudo aquilo, não é que ainda pintou um moleque de nariz escorrendo pedindo ajuda ao nosso salva-vidas para que ele o ajudasse com o leash?! Leleco não teve nem dúvidas, amarrou o leash no pé do moleque e já se levantou como quem diz “Chega!” e saiu antes mesmo de ouvir um “Fica mais um pouquinho!” da garota que logo em seguida proferiu um monte de palavras de baixo calão ao moleque, que saiu correndo para a água, mostrando a língua para sua agressora e sem entender nada.

Acontece que na pressa de ver a galera surfando, Leleco acabou passando o leash por baixo da mesinha de plástico que apoiava o suco de limão e quando o moleque saiu correndo, o suco veio abaixo em cima da garota, queimando sua linda pele bronzeada. Mas Leleco nem percebera o equívoco, pelo contrário, estava feliz e livre de qualquer culpa.

“Fala Fiel!” Disse chegando ao seu posto. “Ué?! Quem colocou minha faixa de ausente embaixo da torre?” Perguntou olhando para seu cachorro, esperando uma resposta mais clara.

‘Não vi ninguém?!’ O cão saiu farejando todos os cantos da torre e nem viu que Leleco subia correndo as escadas sem tomar qualquer providência quanto a faixa.

O tempo passou e logo o estômago de Leleco roncou. “Aii que fome?! Cadê meu rango?” Esse era o único momento que ele largava seu binóculo de livre e espontânea vontade. Fidel que não era bobo e nem nada, já percebendo a movimentação, subiu correndo para ajudar com a boia. ‘Por que ele procura o almoço se ele deixou em casa?’.

Leleco procurava em todos os cantos, mas logo a resposta veio quando sua mãe apareceu com uma quentinha. “Meu filho! Você esqueceu o almoço outra vez, mas não se preocupe, eu trouxe uma que eu acabei de fazer!”

“Valeu mãe!”
‘Ahá!’ Fidel abanou o rabo dando duas latidas. ‘Leleco é muito esperto. Eu também odeio comer comida fria!’

Após o almoço seguido de uma pestana com direito a cafuné da mamãe, Leleco acordou e foi observar a movimentação da praia. Aparentemente tudo calmo. O tempo passava rápido, as crianças levavam uns capotes no quebra-coco, a velha tinha perdido o maiô do ano de 1900 no mar, a série entrava preguiçosa... até que de repente, uma histeria coletiva toma conta da praia. Até aí tudo bem, Leleco não deu muita importância por achar que se tratava de um arrastão. Ele já vira muito disso na TV e sempre ouvira que isso causava pânico entre os frequentadores da praia, mas até então ele achava que arrastão nada mais era que passar a rede para pegar algum peixe no mar, então ele nem deu bola. Continuou olhando o mar com seus binóculos e só percebeu o que realmente as pessoas queriam quando elas se aglomeraram em volta de sua torre clamando por ajuda.

Aquela velha senhora, que perdera o maiô, havia sido sugada pelo mar e agora estava em maus lençóis de água salgada. Vez ou outra se via a cabecinha da velha tentando respirar e seus braços a agitar desesperadamente. Fidel latiu alto e Leleco num ato heroico pegou sua prancha de surf e saiu correndo em direção a água sob o olhar atento de todos. As garotas suspiravam vendo-o passar. Leleco se atirou na água e remou furiosamente em direção à velha, mas eis que de repente algo tira a concentração do nosso herói. “Olha que esquerdinha, Brow... tá pra mim!” Leleco nem titubeou, virou sua prancha e dropou no que considerou a melhor onda do dia.

A cada paulada de backside na cara da onda ele via a galera vibrar na areia e isso dava a ele cada vez mais confiança. Ele foi quebrando a onda de todo o jeito e até achou um tubinho apertado chegando no inside, saindo com água batendo em suas costas. “Uhhhhuuuuu!” gritou. E quando passou um helicóptero por cima de sua cabeça ele pensou se tratar de algum fotógrafo de alguma revista de surf qualquer. “Caraca! Vou ficar famosão!”

A galera ia indo mesmo a loucura quanto mais perto da praia ele chegava, tanto que quando ele chegou veio todo mundo correndo para cima dele e ele já se imaginou sendo erguido. Mal notou a expressão de raiva nas pessoas. E quando todos se juntaram em cima dele, veio uma voz parecida com um trovão, vinda lá de trás, e o que foi bom, pq a galera se dispersou. “Leleco!”

‘Ixxiii?!’ Pensou. ‘Lá vem o Bomba.’ O Bomba era o chefe dos salva-vidas, bom com as bombas, bom com as gatas e zero de surf. Além disso, costumava falar gritando com quem achava ser inferior a ele.

“Leleco, seu cabeça de parafina! Onde você estava? Quase que essa moribunda se afoga na minha praia!” Esbravejava apontando para a pobre senhora que já recebia atendimento fora da água.

Fidel interveio prontamente com latidos e rosnadas. ‘Sua praia?! Não sabia que aqui tinha dono!’

“E o que é esse cachorro aqui na praia?” Perguntou o Bomba encarando Fidel.
“É o Fiel!”
‘Me segura que eu vou te morder!’ Dizia o cão se enroscando por entre as pernas do Leleco.
“Seu cão?! Não me admira essa parte da praia ser imunda! Agora some da minha frente e tira essa droga desse cachorro daqui da praia! Você não leu a faixa que eu mandei você colocar a semana passada na praia? Vai lá olhar!”
Leleco já tinha virado as costas com Fidel seguindo-o fielmente, mas ainda teve que ouvir. “E se amanhã você não estiver no seu posto ou se cometer mais uma falta eu vou te explodir e fazer sabão desse cachorro!”

“Vamos Fiel!” Disse apenas, enquanto que seu amigo teimava em morder de qualquer jeito o Bomba. ‘Como assim me fazer de sabão?!’ Indignou-se.
“Ufa! Que dia hein Fiel... vamos para casa?”

Os dois seguiam para casa e Leleco ia pesaroso, pensando se realmente cometera alguma falta, mas de repente alguém puxou conversa “E aí Leleco, altos tubos hoje?”

“Altos tubos não, mas eu dei altas batidas!” Pesaroso, mas nada que um bom papo de surf para fazer esquecer os aborrecimentos. Para completar, sua mãe havia lhe preparado seu jantar preferido. “Uau!!! Pizza de mozzarela, guaraná e DVD de surf!”.

“Mãe, você é a melhor!” Dizia entre um pedaço e outro, sem desgrudar o olho da telinha.
“Coma tudo direitinho Lelê, amanhã vc tem muito trabalho pra fazer e quero meu filho forte para cuidar das pessoas!”
“Podicrê!”
“Como foi seu dia hoje, meu filho?!”
“Meu dia? Ahhh O cara lá, o Bomba, colou na minha pra ver qual era, mas eu zuei geral e saí de rolê! Pior que a moribunda quase se foi!”
“Moribunda?” Perguntou a mãe que se esforçava, mas que nunca entendia uma palavra do que aquele seu filho queria dizer.
“Eh! Acho que era o nome dela!”

Fidel ergueu a cabeça admirando-o ‘Nome dela? Achei que se referiam ao estado em que ela se encontrava... mas se Leleco diz então deve ser! Leleco é muito inteligente, tenho orgulho de seguir alguém como ele!’

No dia seguinte o despertador não tocou. Leleco sempre se esquecia de colocar ele para despertar e por isso, mais uma vez, ele foi acordado pelo seu cão fiel, Fidel.

Os dois comeram o belo café da manhã preparado pela mãe de Leleco, “Saco vazio não para em pé!”, e foram para a praia, local de trabalho do nosso afortunado herói. “Ei Fiel?!” Disse ele se recordando do dia anterior.

“Tu vai ter que ficar de bituca por aqui!” Apontou para a calçada, embaixo da torre salva-vidas. “Se o Bomba te pegar ele vai fazer sabão de você e me explodir!” Leleco nem imaginava como o Bomba faria aquilo, mas tinha certeza de que ele faria.

Aquele dia ninguém apareceu na praia, nem mesmo o Sol. Apenas um mormaço com uma previsão de uma chuva fina para o final da tarde indicando a aproximação de uma frente fria. “Pior que nem trouxe meu casaco!” Dizia Leleco tiritando de frio.

‘Como o Leleco é determinado!’ Observava Fidel, que não ligava para o frio, na calçada, debaixo da faixa “PROIBIDO ANIMAIS NA PRAIA!”. ‘Nem essa garoa fina e esse vento gelado tiram ele das suas obrigações!’.

“Argh!” Leleco observava o mar com seu binóculo. “Mar tosco... muito vento... sem ondas... sem diversão... talvez aumente para amanhã... vou checar as condições!” Leleco entrou para dentro do seu observatório e decidiu que ficaria ali até seu turno acabar. Sua mãe havia instalado um verdadeiro quarto ali para que nada lhe faltasse. Tinha TV, som, computador, sofazinho, microondas, frigobar e até uma cama para que ele pudesse tirar um cochilo.

“Ei Fiel!” Gritou, pondo a cabeça para fora da janela e antes de se entocar indefinidamente. “Vai pra casa! Não posso te convidar para subir, pq o Bomba pode aparecer e fazer de vc sabão!”

Fidel baixou as orelhas e encolheu o rabo. ‘Ainda pego essa Bomba!’ Pensava em seu íntimo.

Leleco se sentou de frente para o computador e comendo a refeição que sua mãe havia feito acessava um site de surf. “Hoje tem WCT ao vivo!” Empolgou-se. Ele estava tão compenetrado que nem ouviu gritos abafados pela chuva. Para completar, os vidros da torre estavam completamente embaçados devido ao mal tempo.

Lá fora, no mar, havia um surfista que tinha passado despercebido pelo binóculo de Leleco e que agora se encontrava em apuros. Tivera uma câimbra na perna e agora não conseguia sair da água. Mas Fidel, que seguia para casa, ouviu seus gritos de socorro e correu de volta para a Torre Salva-vidas.

“Posso não conseguir salvá-lo, mas com certeza meu amo o fará!”

Fidel começou a latir muito alto do lado de fora e Leleco, por sua vez, assistia com preguiça o WCT enquanto almoçava. Ao perceber que Fidel havia voltado, ele abriu a porta e o chamou. “Vamos Fiel! Pra dentro antes que o Bomba faça sabão de você!” No entanto, Fidel abocanhou sua perna e o puxou até a areia. “O que você quer?” E Foi então que Leleco pode ver e ouvir o surfista em apuros. Ele nem pensou duas vezes, se é que ele pensa, e pegou sua prancha para se atirar no mar.

‘Já diziam que Deus escreve certo por linhas tortas!’ Analisou Fidel ao ver o mar sem ondas, pois inusitadamente Leleco nem prestava atenção ao mar devido as péssimas condições de surf e sim ao surfista em apuros. Mas chegando perto, ele olhou para o surfista e sentou na prancha, vendo-o se afogar.

“Aqui! Socorro!” Gritava o surfista em apuros. Mas Leleco coçava a cabeça. Ele não conseguia se lembrar o que deveria fazer a partir daquele ponto. “Joga a prancha!” Gritou o surfista e Leleco prontamente atendeu como se um estalo fizesse iluminar seus pensamentos.

Após o surfista subir em cima da prancha, Leleco trouxe o surfista são e salvo para a areia. Mas para o azar do surfista, Leleco tentou, ofegante, fazer uma respiração boca a boca, mas o surfista o empurrou para o lado e disse “Sai para lá jacaré! Eu tive câimbra e não afogamento!”
“Podicrê!”
“Pior que essa câimbra não passa!”
“Podicrê!”
“Ahhh!” Gritava o surfista tentando esticar a perna para fazer passar a câimbra. “De qualquer forma obrigado, você me salvou!”

Logo os dois estavam lado a lado, esbaforidos no meio da tempestade. Leleco o ajudou a levantar e foram em direção ao observatório.

“Por falar nisso, você viu minha prancha?” Perguntou o surfista que pelo que seus cabelos grisalhos indicavam, já ia lá para os seus 50 anos.
“Vi sim!” Respondeu Leleco. “Ela foi sugada pelo mar. E a essa altura deve estar na África!”
Um ataque de riso tomou conta do ambiente. “Ei você é legal! Qual o seu nome?”
“Leleco!”
...
“Bom, se você não pergunta eu digo o meu. Paulo!”
“Podicrê!”
Paulo observava Leleco que até o momento não tinha parado de olhar para o mar. “No que você está pensando?”
“Que amanhã vai estar grande mesmo!”
‘É isso aí?! Meu amo é um profeta nato!’ Fidel corria para lá e para cá, latindo para o vento.


E. Straub

Nenhum comentário:

Postar um comentário