sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Um Filho da Noite


Num quarto escuro, decorado por uma coleção velha de ursos de pelúcia, livros, CDs e posters de bandas de rock, um notebook ainda em funcionamento, ao lado de um porta-retratos em cima da escrivaninha, indicava um e-mail não enviado. A sua frente, uma silhueta imóvel, angelical, relia em voz baixa, para si mesma, as linhas ali escritas.
“Oi Jú! Como está por aí? Praia, Sol... nada mal não?! Bem que eu devia ter deixado os trabalhos um pouco de lado e ter ido com você e a Rê...  
O tempo por aqui está bem ruim, desde sexta-feira que tem caído aquela garoazinha fina e chata que só chove e não molha. Além disso, está fazendo muito frio por aqui. Vi o termômetro hoje na rua e estava marcando 11 graus, mas a sensação é de bem menos. Aiii amiga... pena que você foi viajar, poderíamos estar nos divertindo juntas ou pelo menos não fazendo nada, mas juntas... estou com tanto medo... é que a luz acabou outra vez e como ainda é cedo para dormir, pensei em entrar na net para me distrair um pouco e deixar o tempo passar. Acho que sempre tive medo de ficar sozinha e ainda mais no escuro!
Eu até tranquei a porta do meu quarto agora. Meus pais também viajaram e eu fiquei aqui sozinha. Na verdade eu ainda estou tensa, estão acontecendo umas coisas desde sexta-feira que estão me deixando com muito medo, mas olha só, vou contar para você e aí você me diz se estou ou não pirando. Na sexta-feira, depois da aula, eu voltei para casa e fui para a academia.  Estava lotada e até então tudo bem, eu fiz tudo o que eu tinha para fazer e desci para ir embora. Coloquei meu casaco e quando pus o pé para fora da academia, eu ouvi alguém me chamar. Olhei para trás e não vi ninguém, mas quando eu virei para continuar andando, eu ouvi de novo. Me virei bem rápido, pois já estava assustada, e não consegui ver ninguém de novo. Tinha muita neblina. No começo achei que era coisa da minha cabeça para variar, mas aí, lá longe eu vi um cara todo estranho debaixo de um poste de luz. Ele tinha um chapéu e um casacão. Acho que era um sobretudo ou uma capa, sei lá.
Acontece que fiquei encarando o tal sujeito um tempo e, de repente, senti um calafrio. Fiquei com medo, pois achei que o cara fosse um assaltante e quando tentei correr para dentro da academia de novo, não sei porque, mas meu corpo inteiro travou. Não conseguia mais me mexer de tanto medo. Isso nunca tinha acontecido comigo antes, nem mesmo daquela vez que eu estava andando de bicicleta e aqueles dois cachorros saíram correndo da casa da velha e vieram com tudo pra cima de mim! Mas voltando, então, meu corpo travou e para piorar a rua estava deserta. Não tinha ninguém! Só eu e o cara lá longe. Mas daí, o cara começou a vir devagar na minha direção. Eu não conseguia ver ele direito no começo, mas conforme ele foi se aproximando, pude ver sua silhueta no meio da neblina. Aliás, muito estranha essa neblina, já moro aqui faz 7 anos e nunca tinha visto um dia assim.
De qualquer maneira eu queria correr e não conseguia e ele chegando cada vez mais perto, aí eu resolvi gritar, mas minha voz não saía. Meu... eu fiquei muito assustada naquela hora... e o cara chegando e chegando, mas mesmo assim eu ainda não conseguia ver seu rosto, mas eu vi que ele era bem magro e era meio corcunda também, mas o que me aterrorizou foram os olhos vermelhos dele. Bem sinistro o cara! De repente, quando eu já estava chorando de desespero, meu corpo destravou e eu subi correndo para a academia. Meu, mó mico, mas na hora eu nem pensei, cheguei gritando e todo mundo desceu comigo para ver o tal cara, mas até aí ele já tinha ido embora. Pior que eu liguei para casa para o meu pai vir me buscar, mas foi só ali que eu descobri que eles tinham ido viajar e nem me avisaram. O que me restou foi tomar coragem e ir embora para casa sozinha. Para variar estava sem carro, então tinha ido para a academia de bicicleta.
Mas ainda bem que não aconteceu nada na volta, mas você acredita que quando cheguei em casa ainda tomei um baita susto. Ouvi um barulhão na janela do meu quarto e me lembrei do cara na hora. Aí, eu fechei o vidro da janela e subi a persiana para ver o que era e tomei um susto maior ainda, era um morcego enorme que estava rodeando a minha casa e de vez em quando ele vinha e batia na minha janela. Desci a persiana, cobri minha cabeça com o cobertor e até rezei para que nada de mal me acontecesse (E se estou te escrevendo agora é porque todas as minhas preces foram ouvidas rsrs).
Nem preciso te falar que sonhei com um monte de coisas ruins né... sonhei que eu ia mal na prova, sonhei que meus pais despencavam com o carro de um penhasco, sonhei até com aquele cara... sonhei com os olhos daquele cara... mas graças a Deus a hora que ele apareceu no meu sonho eu acordei e já era de manhã! Não conta pra ninguém, mas eu acordei toda molhada, minha cama estava uma sopa e eu tive vontade de chorar. Demorou um bom tempo para eu esquecer aquela história, parar de tremer e aproveitar um pouco do dia. Mas cada vez que eu olhava no relógio e a noite se aproximava, meu medo vinha junto. Aiiii amiga... por quê você não está aqui? Meu, que medo. Só sei que nem saí de casa esse dia, jantei mais cedo, tranquei a casa inteira, fechei todas as janelas e me tranquei no meu quarto debaixo das cobertas para ficar vendo TV e esperar o sono chegar.
Ainda bem que nada de anormal me aconteceu nesse dia, exceto pelo morcegão que fica rodeando minha casa agora. Mas acho que eu e ele estamos nos tornando amigos rsrs. De qualquer maneira acordei super disposta hoje e apesar do Sol não ter aparecido, a chuva deu uma trégua e, a tarde, eu resolvi sair um pouco de bicicleta. Ainda estava muito frio, mas eu me agasalhei bem. No final das contas acho que estava precisando disso, porque estava tão gostoso andar que eu até perdi a noção do tempo. Tanto que quando eu dei por mim já estava quase escurecendo e eu estava um pouco longe de casa. Ai, como sou burra Jú. Vim o caminho inteiro dizendo isso para mim mesma. Pior que como é feriado não tem ninguém na rua... mas como diz aquele ditado antes só do que mal acompanhada, em outras palavras, preferia estar sozinha que com aquele cara bizarro. Aliás, eu via o rosto dele em tudo que era canto. Impressionante o que nossa mente faz com a gente quando estamos com medo.
Cheguei em casa sem problemas, mas aí outra coisa estranha aconteceu. A janela do quarto da minha mãe estava toda escancarada, com o vidro estilhaçado. Eu fiquei com muito medo que fosse aquele morcegão que tivesse entrado, tanto que eu peguei uma vassoura na cozinha e quando fui acender a luz, descobri que não tinha luz. ‘Mais essa agora!’ eu pensei. Estava com frio, morrendo de medo, cansada, com um morcegão podendo estar dentro de casa e sem luz. Ainda bem que estou com o meu celular velho e tem uma lanterna nele. Ele não tira foto, mas pelo menos tem uma lanterna rsrs. Fui subindo as escadas e meu plano era de sair correndo quando chegasse no andar de cima e ir direto para o meu quarto. Vim bem devagar e saí correndo gritando rsrs. Entrei no meu quarto, tranquei a porta e cá estou te enviando esse e-mail. Viva a tecnologia moderna rsrs . Nada que com um notebook e um wirelees a gente não resolva. Bom era isso, espero que você esteja se divertindo por aí, porquê eu não vejo a hora desse feriado acabar!
Beijos amiga!
Obs.: No próximo feriado vou querer ir com certeza com você! Muito melhor ficar aqui... aliás tem tanta gente estranha que fica por aqui e não vai viajar...”
Num quarto escuro, decorado por uma coleção velha de ursos de pelúcia, livros, CDs e posters de bandas de rock, um notebook ainda em funcionamento, ao lado de um porta-retratos em cima da escrivaninha, indicava um e-mail não enviado. A sua frente, uma silhueta imóvel, angelical, relia em voz baixa, para si mesma, as linhas ali escritas. Nunca imaginaria que à suas costas dois olhos fundos, de cor avermelhada, pairavam sobre ela. Uma criatura bizarra, curva, de pele esbranquiçada, observando seus últimos instantes.


E. Straub

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Leleco

Mais um dia na praia do Coquinho! Sol escaldante, merrecas força barra, metade dos banhistas na água e a outra metade se espremendo e querendo entrar. Na areia, quente e branca, onde guarda-sóis se aglomeram por toda parte, gatas circulam e desfilam por toda sua extensão enquanto que os marombados se concentram em apenas um. O verão ia a pino e aquela praia em forma de ferradura do litoral norte paulista fervilhava no ritmo das férias escolares.

“Leleco?! Põe o guarda-sol para mim?” Uma gata suplicava já fazia algum tempo debaixo da torre salva-vidas de onde Leleco observa atentamente aos que se aventuram mar adentro. Prezando a vida das pessoas que buscam relaxar em mais um dia abençoado. Bom... isso era o que as pessoas pensavam, pois as potentes lentes de seu binóculo não apontavam para os garotos endiabrados driblando suas mães em direção ao mar ou mesmo para aquela velha senhora que não fora alertada que aquela praia era praia de tombo, mas sim, direto para o line-up, onde cada onda era disputada no braço, bico por bico.

“Hã?!” Ele olha para baixo na milésima vez que a garota tenta falar com ele, entre uma série e outra.

Havia pelo menos outras 4 torres salva-vidas ao redor da praia, mas aquele pedacinho, em especial, era o mais cobiçado. Se a ondulação vinha de Sul e o vento de leste, e quando o fundo ajudava, as ondas ficavam de gala e era exatamente estes momentos que Leleco aguardava do seu “ponto de observação”, como costumava falar. Cara gente fina, sem rixa com ninguém, tinha os olhos sempre voltados para o mar, sua grande paixão.

“Xá cumigo!” Num pulo, se jogou do alto da torre para se espatifar na areia.
“Você está bem? Por que não desceu pelas escadas?” Perguntou a incrédula garota.
“Podicrê! Achei que já tinham instalado meu corrimão de bombeiro... essa de salva-vidas não é fácil, né!” Disse para arrancar suspiros de suas observadoras de plantão.
“Ei Fiel!” Alertou. “Dá um grau aí que eu já venho!”
‘Você disse Fiel ou Fidel?’ Um cão de orelhas caídas olhava para trás para ter certeza que era realmente com ele. ‘Epa! Parece que ouvi errado meu nome de novo!’ Corrigiu sua postura latindo de prontidão. Fidel, assim como Leleco, também amava o mar, mas ao mesmo tempo temia ele.

“Leleco?! Aqui!” A gata, já se sentindo esquecida novamente, sinalizava para o salva-vidas que dialogava com um cachorro.

Leleco deu alguns passos no meio de tanta gente e fincou com firmeza o guarda-sol na areia sem ao menos ver onde o fazia e ouvir o grito de dor de algum desavisado de plantão que se enterrara na areia para tirar um cochilo.

‘Preciso voltar para o observatório!’ Pensou no que seria um ato de responsabilidade se referisse como seu observatório o local para zelar pela segurança de todos e não um local para observar as condições de surf. Acontece que mal deu 3 passos e outra gata o parou com o mesmo propósito, mas com outra tática.

“Leleco! Passa protetor nas minhas costas... eu não consigo sozinha...”

A gata, que bebericava um suco de limão que deixava numa mesinha ao lado, se virou de costas e retirou a alça superior do biquíni. Por sua vez, Leleco se ajoelhou e começou a passar o protetor em suas costas. “Ai... como está bom... que mãos firmes vc tem Lelê!”

“Bote fé!” Dizia ele que não desgrudava os olhos da seriezinha que estava entrando no outside. E se não bastasse tudo aquilo, não é que ainda pintou um moleque de nariz escorrendo pedindo ajuda ao nosso salva-vidas para que ele o ajudasse com o leash?! Leleco não teve nem dúvidas, amarrou o leash no pé do moleque e já se levantou como quem diz “Chega!” e saiu antes mesmo de ouvir um “Fica mais um pouquinho!” da garota que logo em seguida proferiu um monte de palavras de baixo calão ao moleque, que saiu correndo para a água, mostrando a língua para sua agressora e sem entender nada.

Acontece que na pressa de ver a galera surfando, Leleco acabou passando o leash por baixo da mesinha de plástico que apoiava o suco de limão e quando o moleque saiu correndo, o suco veio abaixo em cima da garota, queimando sua linda pele bronzeada. Mas Leleco nem percebera o equívoco, pelo contrário, estava feliz e livre de qualquer culpa.

“Fala Fiel!” Disse chegando ao seu posto. “Ué?! Quem colocou minha faixa de ausente embaixo da torre?” Perguntou olhando para seu cachorro, esperando uma resposta mais clara.

‘Não vi ninguém?!’ O cão saiu farejando todos os cantos da torre e nem viu que Leleco subia correndo as escadas sem tomar qualquer providência quanto a faixa.

O tempo passou e logo o estômago de Leleco roncou. “Aii que fome?! Cadê meu rango?” Esse era o único momento que ele largava seu binóculo de livre e espontânea vontade. Fidel que não era bobo e nem nada, já percebendo a movimentação, subiu correndo para ajudar com a boia. ‘Por que ele procura o almoço se ele deixou em casa?’.

Leleco procurava em todos os cantos, mas logo a resposta veio quando sua mãe apareceu com uma quentinha. “Meu filho! Você esqueceu o almoço outra vez, mas não se preocupe, eu trouxe uma que eu acabei de fazer!”

“Valeu mãe!”
‘Ahá!’ Fidel abanou o rabo dando duas latidas. ‘Leleco é muito esperto. Eu também odeio comer comida fria!’

Após o almoço seguido de uma pestana com direito a cafuné da mamãe, Leleco acordou e foi observar a movimentação da praia. Aparentemente tudo calmo. O tempo passava rápido, as crianças levavam uns capotes no quebra-coco, a velha tinha perdido o maiô do ano de 1900 no mar, a série entrava preguiçosa... até que de repente, uma histeria coletiva toma conta da praia. Até aí tudo bem, Leleco não deu muita importância por achar que se tratava de um arrastão. Ele já vira muito disso na TV e sempre ouvira que isso causava pânico entre os frequentadores da praia, mas até então ele achava que arrastão nada mais era que passar a rede para pegar algum peixe no mar, então ele nem deu bola. Continuou olhando o mar com seus binóculos e só percebeu o que realmente as pessoas queriam quando elas se aglomeraram em volta de sua torre clamando por ajuda.

Aquela velha senhora, que perdera o maiô, havia sido sugada pelo mar e agora estava em maus lençóis de água salgada. Vez ou outra se via a cabecinha da velha tentando respirar e seus braços a agitar desesperadamente. Fidel latiu alto e Leleco num ato heroico pegou sua prancha de surf e saiu correndo em direção a água sob o olhar atento de todos. As garotas suspiravam vendo-o passar. Leleco se atirou na água e remou furiosamente em direção à velha, mas eis que de repente algo tira a concentração do nosso herói. “Olha que esquerdinha, Brow... tá pra mim!” Leleco nem titubeou, virou sua prancha e dropou no que considerou a melhor onda do dia.

A cada paulada de backside na cara da onda ele via a galera vibrar na areia e isso dava a ele cada vez mais confiança. Ele foi quebrando a onda de todo o jeito e até achou um tubinho apertado chegando no inside, saindo com água batendo em suas costas. “Uhhhhuuuuu!” gritou. E quando passou um helicóptero por cima de sua cabeça ele pensou se tratar de algum fotógrafo de alguma revista de surf qualquer. “Caraca! Vou ficar famosão!”

A galera ia indo mesmo a loucura quanto mais perto da praia ele chegava, tanto que quando ele chegou veio todo mundo correndo para cima dele e ele já se imaginou sendo erguido. Mal notou a expressão de raiva nas pessoas. E quando todos se juntaram em cima dele, veio uma voz parecida com um trovão, vinda lá de trás, e o que foi bom, pq a galera se dispersou. “Leleco!”

‘Ixxiii?!’ Pensou. ‘Lá vem o Bomba.’ O Bomba era o chefe dos salva-vidas, bom com as bombas, bom com as gatas e zero de surf. Além disso, costumava falar gritando com quem achava ser inferior a ele.

“Leleco, seu cabeça de parafina! Onde você estava? Quase que essa moribunda se afoga na minha praia!” Esbravejava apontando para a pobre senhora que já recebia atendimento fora da água.

Fidel interveio prontamente com latidos e rosnadas. ‘Sua praia?! Não sabia que aqui tinha dono!’

“E o que é esse cachorro aqui na praia?” Perguntou o Bomba encarando Fidel.
“É o Fiel!”
‘Me segura que eu vou te morder!’ Dizia o cão se enroscando por entre as pernas do Leleco.
“Seu cão?! Não me admira essa parte da praia ser imunda! Agora some da minha frente e tira essa droga desse cachorro daqui da praia! Você não leu a faixa que eu mandei você colocar a semana passada na praia? Vai lá olhar!”
Leleco já tinha virado as costas com Fidel seguindo-o fielmente, mas ainda teve que ouvir. “E se amanhã você não estiver no seu posto ou se cometer mais uma falta eu vou te explodir e fazer sabão desse cachorro!”

“Vamos Fiel!” Disse apenas, enquanto que seu amigo teimava em morder de qualquer jeito o Bomba. ‘Como assim me fazer de sabão?!’ Indignou-se.
“Ufa! Que dia hein Fiel... vamos para casa?”

Os dois seguiam para casa e Leleco ia pesaroso, pensando se realmente cometera alguma falta, mas de repente alguém puxou conversa “E aí Leleco, altos tubos hoje?”

“Altos tubos não, mas eu dei altas batidas!” Pesaroso, mas nada que um bom papo de surf para fazer esquecer os aborrecimentos. Para completar, sua mãe havia lhe preparado seu jantar preferido. “Uau!!! Pizza de mozzarela, guaraná e DVD de surf!”.

“Mãe, você é a melhor!” Dizia entre um pedaço e outro, sem desgrudar o olho da telinha.
“Coma tudo direitinho Lelê, amanhã vc tem muito trabalho pra fazer e quero meu filho forte para cuidar das pessoas!”
“Podicrê!”
“Como foi seu dia hoje, meu filho?!”
“Meu dia? Ahhh O cara lá, o Bomba, colou na minha pra ver qual era, mas eu zuei geral e saí de rolê! Pior que a moribunda quase se foi!”
“Moribunda?” Perguntou a mãe que se esforçava, mas que nunca entendia uma palavra do que aquele seu filho queria dizer.
“Eh! Acho que era o nome dela!”

Fidel ergueu a cabeça admirando-o ‘Nome dela? Achei que se referiam ao estado em que ela se encontrava... mas se Leleco diz então deve ser! Leleco é muito inteligente, tenho orgulho de seguir alguém como ele!’

No dia seguinte o despertador não tocou. Leleco sempre se esquecia de colocar ele para despertar e por isso, mais uma vez, ele foi acordado pelo seu cão fiel, Fidel.

Os dois comeram o belo café da manhã preparado pela mãe de Leleco, “Saco vazio não para em pé!”, e foram para a praia, local de trabalho do nosso afortunado herói. “Ei Fiel?!” Disse ele se recordando do dia anterior.

“Tu vai ter que ficar de bituca por aqui!” Apontou para a calçada, embaixo da torre salva-vidas. “Se o Bomba te pegar ele vai fazer sabão de você e me explodir!” Leleco nem imaginava como o Bomba faria aquilo, mas tinha certeza de que ele faria.

Aquele dia ninguém apareceu na praia, nem mesmo o Sol. Apenas um mormaço com uma previsão de uma chuva fina para o final da tarde indicando a aproximação de uma frente fria. “Pior que nem trouxe meu casaco!” Dizia Leleco tiritando de frio.

‘Como o Leleco é determinado!’ Observava Fidel, que não ligava para o frio, na calçada, debaixo da faixa “PROIBIDO ANIMAIS NA PRAIA!”. ‘Nem essa garoa fina e esse vento gelado tiram ele das suas obrigações!’.

“Argh!” Leleco observava o mar com seu binóculo. “Mar tosco... muito vento... sem ondas... sem diversão... talvez aumente para amanhã... vou checar as condições!” Leleco entrou para dentro do seu observatório e decidiu que ficaria ali até seu turno acabar. Sua mãe havia instalado um verdadeiro quarto ali para que nada lhe faltasse. Tinha TV, som, computador, sofazinho, microondas, frigobar e até uma cama para que ele pudesse tirar um cochilo.

“Ei Fiel!” Gritou, pondo a cabeça para fora da janela e antes de se entocar indefinidamente. “Vai pra casa! Não posso te convidar para subir, pq o Bomba pode aparecer e fazer de vc sabão!”

Fidel baixou as orelhas e encolheu o rabo. ‘Ainda pego essa Bomba!’ Pensava em seu íntimo.

Leleco se sentou de frente para o computador e comendo a refeição que sua mãe havia feito acessava um site de surf. “Hoje tem WCT ao vivo!” Empolgou-se. Ele estava tão compenetrado que nem ouviu gritos abafados pela chuva. Para completar, os vidros da torre estavam completamente embaçados devido ao mal tempo.

Lá fora, no mar, havia um surfista que tinha passado despercebido pelo binóculo de Leleco e que agora se encontrava em apuros. Tivera uma câimbra na perna e agora não conseguia sair da água. Mas Fidel, que seguia para casa, ouviu seus gritos de socorro e correu de volta para a Torre Salva-vidas.

“Posso não conseguir salvá-lo, mas com certeza meu amo o fará!”

Fidel começou a latir muito alto do lado de fora e Leleco, por sua vez, assistia com preguiça o WCT enquanto almoçava. Ao perceber que Fidel havia voltado, ele abriu a porta e o chamou. “Vamos Fiel! Pra dentro antes que o Bomba faça sabão de você!” No entanto, Fidel abocanhou sua perna e o puxou até a areia. “O que você quer?” E Foi então que Leleco pode ver e ouvir o surfista em apuros. Ele nem pensou duas vezes, se é que ele pensa, e pegou sua prancha para se atirar no mar.

‘Já diziam que Deus escreve certo por linhas tortas!’ Analisou Fidel ao ver o mar sem ondas, pois inusitadamente Leleco nem prestava atenção ao mar devido as péssimas condições de surf e sim ao surfista em apuros. Mas chegando perto, ele olhou para o surfista e sentou na prancha, vendo-o se afogar.

“Aqui! Socorro!” Gritava o surfista em apuros. Mas Leleco coçava a cabeça. Ele não conseguia se lembrar o que deveria fazer a partir daquele ponto. “Joga a prancha!” Gritou o surfista e Leleco prontamente atendeu como se um estalo fizesse iluminar seus pensamentos.

Após o surfista subir em cima da prancha, Leleco trouxe o surfista são e salvo para a areia. Mas para o azar do surfista, Leleco tentou, ofegante, fazer uma respiração boca a boca, mas o surfista o empurrou para o lado e disse “Sai para lá jacaré! Eu tive câimbra e não afogamento!”
“Podicrê!”
“Pior que essa câimbra não passa!”
“Podicrê!”
“Ahhh!” Gritava o surfista tentando esticar a perna para fazer passar a câimbra. “De qualquer forma obrigado, você me salvou!”

Logo os dois estavam lado a lado, esbaforidos no meio da tempestade. Leleco o ajudou a levantar e foram em direção ao observatório.

“Por falar nisso, você viu minha prancha?” Perguntou o surfista que pelo que seus cabelos grisalhos indicavam, já ia lá para os seus 50 anos.
“Vi sim!” Respondeu Leleco. “Ela foi sugada pelo mar. E a essa altura deve estar na África!”
Um ataque de riso tomou conta do ambiente. “Ei você é legal! Qual o seu nome?”
“Leleco!”
...
“Bom, se você não pergunta eu digo o meu. Paulo!”
“Podicrê!”
Paulo observava Leleco que até o momento não tinha parado de olhar para o mar. “No que você está pensando?”
“Que amanhã vai estar grande mesmo!”
‘É isso aí?! Meu amo é um profeta nato!’ Fidel corria para lá e para cá, latindo para o vento.


E. Straub