sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Contos Natalinos


Para Luizinho, nenhuma data era mais importante e significativa que o Natal. Muito mais do que seu aniversário ou o dia das crianças. Pois no Natal, quem entregava seu presente não eram seus pais ou familiares, mas, sim, o Papai Noel. E ele nunca ouviu reclamação sequer do bom velhinho sobre estar sem dinheiro, que a economia estava em baixa, que a tal globalização, que nunca entendeu bem o que era, enriquecia os ricos e empobrecia os mais desafortunados. “Eu sou um desafortunado?” Perguntava à sua mãe toda vez que ouvia aquilo do seu tio Arthur, entre um drinque e outro.
Mas quem era Papai Noel? Essa pergunta, Luizinho respondia sempre de prontidão, já mostrando desde cedo seu tino comercial para a diversão de seus tios, que passaram natais a fio ensinando-o todas aquelas palavras. “Papai Noel é um velhinho que iniciou uma fabriqueta de brinquedos há muito tempo atrás lá no Polo Norte e que quando a coisa apertou teve que contratar uns duendes a preço de banana pra ajudar ele!”
Agora, se tinha uma questão de que seus tios se esquivavam era quando ele perguntava como o Papai Noel conseguia entregar todos os presentes numa única noite. Ele sempre se intrigava com isso, mas ele logo esquecia, afinal, o importante era seu brinquedo chegar. Não um brinquedo qualquer, mas um que ele passava o ano inteiro sonhando, desejando, mas que sempre mudava de opinião no início de dezembro, quando os comerciais de televisão bombardeavam incessantemente sua imaginação.
Quando era menor, digo isso até uns dois anos atrás, o Natal sempre chegava de forma inesperada. “Hoje é Natal!” Dizia sua mãe para ver seu filho pular de alegria. Uma alegria contagiante, mágica. Então ele cresceu e aprendeu a contar os dias na escola. “Mãe, precisamos nos preparar, já está quase no Natal!” Costumava alertar em meados de novembro. Ele era um menino muito impaciente. No dia derradeiro, ele esperava ansiosamente pelo momento da entrega dos presentes como se não houvesse nada entre ele e seu mimo. Quase não conseguia comer e se pudesse, deixaria de respirar também. Uma vez sua avó o viu roxo, tremendo, perto da árvore de Natal e se assustou. “Menino, você está roxo!” E só então ele liberou o ar e se lembrou de respirar.
No entanto, havia Natais mais fartos que outros, mas aqui seus tios, meio sem jeito, falavam que talvez naquele ano ele não fora tão bonzinho. “Mas eu fui bonzinho!” Dizia Luizinho entre lágrimas mesmo sabendo que sua afirmação não era assim, digamos, tão verdadeira. Luizinho passava o ano inteiro fazendo travessuras, mas quando o Natal se aproximava, ele parava de aporrinhar sua irmã ou de fazer chacota das outras pessoas.
Já disse que o garoto era ansioso, não? Pois bem, de tão ansioso e insistente, para não dizer chato. No ano anterior, fora decidido que Luizinho não mais ficaria na sala no momento em que seus pais e tios tinham de apagar a luz e dar uma de David Copperfield colocando trinta presentes no recinto em questão de minutos. Tudo isso cantarolando músicas natalinas para esconder o barulho dos tropeços e dos móveis sendo arrastados de lá para cá. Mas após a entrega, se a entrega fosse bem feita e querida, o menino se acalmava e ia brincar feliz. E só então se lembrava de correr para a janela e olhar para fora na esperança que estivesse nevando.
Todo ano ele ajudava sua mãe a montar a árvore de Natal, mas seu intuito era o de sempre pedir para sua mãe escrever sua cartinha de Natal e para ser o primeiro a pô-la embaixo da árvore. No entanto, esse ano Luizinho resolveu fazer diferente. Afinal, ele já era grande, tinha se dedicado 1 ano inteiro a aprender a ler e a escrever, por isso, decidiu que ele mesmo escreveria para o Papai Noel. E mais, decidiu escrever e enviá-la por correio para que o bom velhinho tivesse tempo de confeccionar seu desejo. “Agora só preciso descobrir onde ele mora!” Teria dito.
O tempo passou, o Natal chegou e como todo ano, sua mãe seguiu o protocolo à risca ao levar ele, sua irmã e seu relutante pai para ver a linda decoração de Natal dos shoppings centers. Luizinho se transformava com todas aquelas luzes mil, com bolas coloridas espalhadas por todos os cantos e algodão, simbolizando a neve, para dar uma maior alusão ao Natal. As vitrines das lojas eram umas mais bonitas que as outras. Os olhos, por muitas vezes, não sabiam mais para onde olhar. Tinham umas que até eram robotizadas, com um Papai Noel mecânico acenando feliz para todos. Mas a vitrine que ele mais gostava era o da loja de brinquedos. Passava horas ali, se torturando e analisando cada possibilidade. ‘Será?’
Mas como todo passeio tem que terminar, aquele também tinha destino certo: um hall bem amplo no centro do shopping. Havia um rinque de patinação antes, mas os lojistas pensaram em coisa bem melhor para aquele Natal, mais rentável, diga-se de passagem. Construíram, sem se importar com gastos, parte da região do Polo Norte que abrigava a casa do Papai Noel. Aliás, a decoração fora caprichada naquela área. Havia neve e gelo por toda parte, e o ar condicionado era deixado bem frio naquela região do shopping para que as pessoas se sentissem realmente nas redondezas da casa do bom velhinho. Havia, também, felizes duendes de madeira espalhados por toda parte e renas improvisadas de cavalinhos de brinquedos, que, além de puxar o trenó fictício do Papai Noel, também serviam de montaria para toda a garotada.
“Vá pedir seu presente ao Papai Noel!” Disse sua mãe ao verem Papai Noel acenando sentado de sua cadeira com uma criança no colo. Uma fila enorme se formava e a irmã de Luizinho, menor que ele, não perdeu tempo em correr e se enfiar no meio da multidão.
“Ele não é o Papai Noel, ele é só um homem... e aqui também não é o Polo Norte!” Respondeu o sabido Luizinho.
Ele ficou ali de longe, observando a confusão enquanto sua mãe se entretinha com o presépio montado ali perto. Luizinho não entendia do por que as pessoas misturavam religião com Natal. ‘Não tem nada haver!’ Pensava ele ao lado de sua mãe, curioso sobre o presente que os Três Reis Magos vinham carregando em suas mãos.
“Luizinho, vá ver sua irmã e não desgrude os olhos dela!”
Luizinho foi, e foi com boa vontade, afinal o dia derradeiro era o dia seguinte e ele não poderia cometer um único deslize sequer, nem mesmo roubar na calada da noite os papais noéis de chocolates que sua mãe sempre pendurava na árvore de natal. Mas ao observar a multidão em fila, tentando falar com Papai Noel, seus olhos sequer se voltaram para sua irmã, que era convidada a se sentar no colo do bom velhinho para levar um dos leros mais sérios que já tivera em sua vida. Aconteceu que a neve que ele achou que fosse neve embaixo da cadeira do Papai Noel, não era neve, era uma montanha de cartas e essas cartas se espalhavam aos montes por todas as partes.
‘CARTAS!’ Luisinho suou frio como nunca havia feito em sua vida, seus olhos esbugalharam e sua cabeça doeu. ‘Minha carta!’ Nervoso e tentando por a culpa em alguém, Luisinho lembrou de que havia se esquecido de por a carta no correio e agora não havia mais tempo. Desesperado, correu para uma montanha de cartas qualquer para crer no que seus olhos viam. Umas mais magras, outras mais gorduchas... devia ter muitos brinquedos escritos ali, pensava sempre ao ver um envelope. Mas o que fazer? Ele não sabia, estava com medo de não ganhar nenhum presente aquele ano. Aliás, aquilo estava fora de cogitação, pois se perdesse aquela oportunidade, teria que esperar mais um ano para ganhar alguma coisa.
 Correndo ele foi ao encontro da sua mãe. “Mãe! Me dá uma caneta?” A mãe estranhou a palidez do filho, mas procurou na sua bolsa e deu-lhe uma. “Você está bem? Onde está sua irmã?”
“Já venho!” Deu as costas e saiu correndo.
Ele estava cego, tremendo, com medo. Nem viu sua irmã dar um beijo no rosto do Papai Noel. Se tivesse visto, teria ganhado um pirulito também. Mas isso não importava, ele correu para aquela montanha de cartas com a caneta na mão. Ele nem sequer a testou antes para ver se estava funcionando, tinha que funcionar. Então ele mexeu e remexeu naquela montanha, suando frio, com medo de que alguém estivesse olhando, com medo de que aquele falso Papai Noel se levantasse da cadeira para perguntar o que estava acontecendo. Era agora ou nunca, sua única e última oportunidade. Luizinho foi metendo a mão e logo escolheu uma carta, uma daquelas gorduchas. Olhou para os lados, desconfiado, e rabiscou o nome da criança que havia escrito aquela carta para escrever o seu por cima, do jeito que deu. Nem sequer colocou-a no chão para escrever, apoiou no joelho mesmo e escreveu. Depois chafurdou sua carta no interior daquela montanha e deixou-a lá.
Ele olhou para os lados novamente e ninguém vira. O mundo saiu de suas costas, sorriu e carregou-o. Pronto! Agora era só esperar. Ele estava muito feliz, radiante. Não sabia o que tinha na carta, mas não importava, o importante era garantir o seu. Nem pensou na outra criança que poderia deixar de ganhar seu desejo.
E ao chegar perto de sua mãe para devolver a caneta, a mãe perguntou. “Onde você foi Luizinho? Estávamos te procurando por todos os cantos!”
Luizinho olhou para sua irmã e ela estava com uma cara de delatora. Ficou com medo. Será que ela vira? Mas aquela cara ela sempre tivera e como ninguém falou nada, ele retrucou.
“Sabia que eu te amo, mãe?!” Sorriu para ver sua mãe também sorrir e passar a mão na sua cabeça.
O mundo estava cor-de-rosa outra vez.

E. Straub
(Feliz Natal e qualquer semelhança é mera coincidência)

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Um Filho da Noite


Num quarto escuro, decorado por uma coleção velha de ursos de pelúcia, livros, CDs e posters de bandas de rock, um notebook ainda em funcionamento, ao lado de um porta-retratos em cima da escrivaninha, indicava um e-mail não enviado. A sua frente, uma silhueta imóvel, angelical, relia em voz baixa, para si mesma, as linhas ali escritas.
“Oi Jú! Como está por aí? Praia, Sol... nada mal não?! Bem que eu devia ter deixado os trabalhos um pouco de lado e ter ido com você e a Rê...  
O tempo por aqui está bem ruim, desde sexta-feira que tem caído aquela garoazinha fina e chata que só chove e não molha. Além disso, está fazendo muito frio por aqui. Vi o termômetro hoje na rua e estava marcando 11 graus, mas a sensação é de bem menos. Aiii amiga... pena que você foi viajar, poderíamos estar nos divertindo juntas ou pelo menos não fazendo nada, mas juntas... estou com tanto medo... é que a luz acabou outra vez e como ainda é cedo para dormir, pensei em entrar na net para me distrair um pouco e deixar o tempo passar. Acho que sempre tive medo de ficar sozinha e ainda mais no escuro!
Eu até tranquei a porta do meu quarto agora. Meus pais também viajaram e eu fiquei aqui sozinha. Na verdade eu ainda estou tensa, estão acontecendo umas coisas desde sexta-feira que estão me deixando com muito medo, mas olha só, vou contar para você e aí você me diz se estou ou não pirando. Na sexta-feira, depois da aula, eu voltei para casa e fui para a academia.  Estava lotada e até então tudo bem, eu fiz tudo o que eu tinha para fazer e desci para ir embora. Coloquei meu casaco e quando pus o pé para fora da academia, eu ouvi alguém me chamar. Olhei para trás e não vi ninguém, mas quando eu virei para continuar andando, eu ouvi de novo. Me virei bem rápido, pois já estava assustada, e não consegui ver ninguém de novo. Tinha muita neblina. No começo achei que era coisa da minha cabeça para variar, mas aí, lá longe eu vi um cara todo estranho debaixo de um poste de luz. Ele tinha um chapéu e um casacão. Acho que era um sobretudo ou uma capa, sei lá.
Acontece que fiquei encarando o tal sujeito um tempo e, de repente, senti um calafrio. Fiquei com medo, pois achei que o cara fosse um assaltante e quando tentei correr para dentro da academia de novo, não sei porque, mas meu corpo inteiro travou. Não conseguia mais me mexer de tanto medo. Isso nunca tinha acontecido comigo antes, nem mesmo daquela vez que eu estava andando de bicicleta e aqueles dois cachorros saíram correndo da casa da velha e vieram com tudo pra cima de mim! Mas voltando, então, meu corpo travou e para piorar a rua estava deserta. Não tinha ninguém! Só eu e o cara lá longe. Mas daí, o cara começou a vir devagar na minha direção. Eu não conseguia ver ele direito no começo, mas conforme ele foi se aproximando, pude ver sua silhueta no meio da neblina. Aliás, muito estranha essa neblina, já moro aqui faz 7 anos e nunca tinha visto um dia assim.
De qualquer maneira eu queria correr e não conseguia e ele chegando cada vez mais perto, aí eu resolvi gritar, mas minha voz não saía. Meu... eu fiquei muito assustada naquela hora... e o cara chegando e chegando, mas mesmo assim eu ainda não conseguia ver seu rosto, mas eu vi que ele era bem magro e era meio corcunda também, mas o que me aterrorizou foram os olhos vermelhos dele. Bem sinistro o cara! De repente, quando eu já estava chorando de desespero, meu corpo destravou e eu subi correndo para a academia. Meu, mó mico, mas na hora eu nem pensei, cheguei gritando e todo mundo desceu comigo para ver o tal cara, mas até aí ele já tinha ido embora. Pior que eu liguei para casa para o meu pai vir me buscar, mas foi só ali que eu descobri que eles tinham ido viajar e nem me avisaram. O que me restou foi tomar coragem e ir embora para casa sozinha. Para variar estava sem carro, então tinha ido para a academia de bicicleta.
Mas ainda bem que não aconteceu nada na volta, mas você acredita que quando cheguei em casa ainda tomei um baita susto. Ouvi um barulhão na janela do meu quarto e me lembrei do cara na hora. Aí, eu fechei o vidro da janela e subi a persiana para ver o que era e tomei um susto maior ainda, era um morcego enorme que estava rodeando a minha casa e de vez em quando ele vinha e batia na minha janela. Desci a persiana, cobri minha cabeça com o cobertor e até rezei para que nada de mal me acontecesse (E se estou te escrevendo agora é porque todas as minhas preces foram ouvidas rsrs).
Nem preciso te falar que sonhei com um monte de coisas ruins né... sonhei que eu ia mal na prova, sonhei que meus pais despencavam com o carro de um penhasco, sonhei até com aquele cara... sonhei com os olhos daquele cara... mas graças a Deus a hora que ele apareceu no meu sonho eu acordei e já era de manhã! Não conta pra ninguém, mas eu acordei toda molhada, minha cama estava uma sopa e eu tive vontade de chorar. Demorou um bom tempo para eu esquecer aquela história, parar de tremer e aproveitar um pouco do dia. Mas cada vez que eu olhava no relógio e a noite se aproximava, meu medo vinha junto. Aiiii amiga... por quê você não está aqui? Meu, que medo. Só sei que nem saí de casa esse dia, jantei mais cedo, tranquei a casa inteira, fechei todas as janelas e me tranquei no meu quarto debaixo das cobertas para ficar vendo TV e esperar o sono chegar.
Ainda bem que nada de anormal me aconteceu nesse dia, exceto pelo morcegão que fica rodeando minha casa agora. Mas acho que eu e ele estamos nos tornando amigos rsrs. De qualquer maneira acordei super disposta hoje e apesar do Sol não ter aparecido, a chuva deu uma trégua e, a tarde, eu resolvi sair um pouco de bicicleta. Ainda estava muito frio, mas eu me agasalhei bem. No final das contas acho que estava precisando disso, porque estava tão gostoso andar que eu até perdi a noção do tempo. Tanto que quando eu dei por mim já estava quase escurecendo e eu estava um pouco longe de casa. Ai, como sou burra Jú. Vim o caminho inteiro dizendo isso para mim mesma. Pior que como é feriado não tem ninguém na rua... mas como diz aquele ditado antes só do que mal acompanhada, em outras palavras, preferia estar sozinha que com aquele cara bizarro. Aliás, eu via o rosto dele em tudo que era canto. Impressionante o que nossa mente faz com a gente quando estamos com medo.
Cheguei em casa sem problemas, mas aí outra coisa estranha aconteceu. A janela do quarto da minha mãe estava toda escancarada, com o vidro estilhaçado. Eu fiquei com muito medo que fosse aquele morcegão que tivesse entrado, tanto que eu peguei uma vassoura na cozinha e quando fui acender a luz, descobri que não tinha luz. ‘Mais essa agora!’ eu pensei. Estava com frio, morrendo de medo, cansada, com um morcegão podendo estar dentro de casa e sem luz. Ainda bem que estou com o meu celular velho e tem uma lanterna nele. Ele não tira foto, mas pelo menos tem uma lanterna rsrs. Fui subindo as escadas e meu plano era de sair correndo quando chegasse no andar de cima e ir direto para o meu quarto. Vim bem devagar e saí correndo gritando rsrs. Entrei no meu quarto, tranquei a porta e cá estou te enviando esse e-mail. Viva a tecnologia moderna rsrs . Nada que com um notebook e um wirelees a gente não resolva. Bom era isso, espero que você esteja se divertindo por aí, porquê eu não vejo a hora desse feriado acabar!
Beijos amiga!
Obs.: No próximo feriado vou querer ir com certeza com você! Muito melhor ficar aqui... aliás tem tanta gente estranha que fica por aqui e não vai viajar...”
Num quarto escuro, decorado por uma coleção velha de ursos de pelúcia, livros, CDs e posters de bandas de rock, um notebook ainda em funcionamento, ao lado de um porta-retratos em cima da escrivaninha, indicava um e-mail não enviado. A sua frente, uma silhueta imóvel, angelical, relia em voz baixa, para si mesma, as linhas ali escritas. Nunca imaginaria que à suas costas dois olhos fundos, de cor avermelhada, pairavam sobre ela. Uma criatura bizarra, curva, de pele esbranquiçada, observando seus últimos instantes.


E. Straub

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Leleco

Mais um dia na praia do Coquinho! Sol escaldante, merrecas força barra, metade dos banhistas na água e a outra metade se espremendo e querendo entrar. Na areia, quente e branca, onde guarda-sóis se aglomeram por toda parte, gatas circulam e desfilam por toda sua extensão enquanto que os marombados se concentram em apenas um. O verão ia a pino e aquela praia em forma de ferradura do litoral norte paulista fervilhava no ritmo das férias escolares.

“Leleco?! Põe o guarda-sol para mim?” Uma gata suplicava já fazia algum tempo debaixo da torre salva-vidas de onde Leleco observa atentamente aos que se aventuram mar adentro. Prezando a vida das pessoas que buscam relaxar em mais um dia abençoado. Bom... isso era o que as pessoas pensavam, pois as potentes lentes de seu binóculo não apontavam para os garotos endiabrados driblando suas mães em direção ao mar ou mesmo para aquela velha senhora que não fora alertada que aquela praia era praia de tombo, mas sim, direto para o line-up, onde cada onda era disputada no braço, bico por bico.

“Hã?!” Ele olha para baixo na milésima vez que a garota tenta falar com ele, entre uma série e outra.

Havia pelo menos outras 4 torres salva-vidas ao redor da praia, mas aquele pedacinho, em especial, era o mais cobiçado. Se a ondulação vinha de Sul e o vento de leste, e quando o fundo ajudava, as ondas ficavam de gala e era exatamente estes momentos que Leleco aguardava do seu “ponto de observação”, como costumava falar. Cara gente fina, sem rixa com ninguém, tinha os olhos sempre voltados para o mar, sua grande paixão.

“Xá cumigo!” Num pulo, se jogou do alto da torre para se espatifar na areia.
“Você está bem? Por que não desceu pelas escadas?” Perguntou a incrédula garota.
“Podicrê! Achei que já tinham instalado meu corrimão de bombeiro... essa de salva-vidas não é fácil, né!” Disse para arrancar suspiros de suas observadoras de plantão.
“Ei Fiel!” Alertou. “Dá um grau aí que eu já venho!”
‘Você disse Fiel ou Fidel?’ Um cão de orelhas caídas olhava para trás para ter certeza que era realmente com ele. ‘Epa! Parece que ouvi errado meu nome de novo!’ Corrigiu sua postura latindo de prontidão. Fidel, assim como Leleco, também amava o mar, mas ao mesmo tempo temia ele.

“Leleco?! Aqui!” A gata, já se sentindo esquecida novamente, sinalizava para o salva-vidas que dialogava com um cachorro.

Leleco deu alguns passos no meio de tanta gente e fincou com firmeza o guarda-sol na areia sem ao menos ver onde o fazia e ouvir o grito de dor de algum desavisado de plantão que se enterrara na areia para tirar um cochilo.

‘Preciso voltar para o observatório!’ Pensou no que seria um ato de responsabilidade se referisse como seu observatório o local para zelar pela segurança de todos e não um local para observar as condições de surf. Acontece que mal deu 3 passos e outra gata o parou com o mesmo propósito, mas com outra tática.

“Leleco! Passa protetor nas minhas costas... eu não consigo sozinha...”

A gata, que bebericava um suco de limão que deixava numa mesinha ao lado, se virou de costas e retirou a alça superior do biquíni. Por sua vez, Leleco se ajoelhou e começou a passar o protetor em suas costas. “Ai... como está bom... que mãos firmes vc tem Lelê!”

“Bote fé!” Dizia ele que não desgrudava os olhos da seriezinha que estava entrando no outside. E se não bastasse tudo aquilo, não é que ainda pintou um moleque de nariz escorrendo pedindo ajuda ao nosso salva-vidas para que ele o ajudasse com o leash?! Leleco não teve nem dúvidas, amarrou o leash no pé do moleque e já se levantou como quem diz “Chega!” e saiu antes mesmo de ouvir um “Fica mais um pouquinho!” da garota que logo em seguida proferiu um monte de palavras de baixo calão ao moleque, que saiu correndo para a água, mostrando a língua para sua agressora e sem entender nada.

Acontece que na pressa de ver a galera surfando, Leleco acabou passando o leash por baixo da mesinha de plástico que apoiava o suco de limão e quando o moleque saiu correndo, o suco veio abaixo em cima da garota, queimando sua linda pele bronzeada. Mas Leleco nem percebera o equívoco, pelo contrário, estava feliz e livre de qualquer culpa.

“Fala Fiel!” Disse chegando ao seu posto. “Ué?! Quem colocou minha faixa de ausente embaixo da torre?” Perguntou olhando para seu cachorro, esperando uma resposta mais clara.

‘Não vi ninguém?!’ O cão saiu farejando todos os cantos da torre e nem viu que Leleco subia correndo as escadas sem tomar qualquer providência quanto a faixa.

O tempo passou e logo o estômago de Leleco roncou. “Aii que fome?! Cadê meu rango?” Esse era o único momento que ele largava seu binóculo de livre e espontânea vontade. Fidel que não era bobo e nem nada, já percebendo a movimentação, subiu correndo para ajudar com a boia. ‘Por que ele procura o almoço se ele deixou em casa?’.

Leleco procurava em todos os cantos, mas logo a resposta veio quando sua mãe apareceu com uma quentinha. “Meu filho! Você esqueceu o almoço outra vez, mas não se preocupe, eu trouxe uma que eu acabei de fazer!”

“Valeu mãe!”
‘Ahá!’ Fidel abanou o rabo dando duas latidas. ‘Leleco é muito esperto. Eu também odeio comer comida fria!’

Após o almoço seguido de uma pestana com direito a cafuné da mamãe, Leleco acordou e foi observar a movimentação da praia. Aparentemente tudo calmo. O tempo passava rápido, as crianças levavam uns capotes no quebra-coco, a velha tinha perdido o maiô do ano de 1900 no mar, a série entrava preguiçosa... até que de repente, uma histeria coletiva toma conta da praia. Até aí tudo bem, Leleco não deu muita importância por achar que se tratava de um arrastão. Ele já vira muito disso na TV e sempre ouvira que isso causava pânico entre os frequentadores da praia, mas até então ele achava que arrastão nada mais era que passar a rede para pegar algum peixe no mar, então ele nem deu bola. Continuou olhando o mar com seus binóculos e só percebeu o que realmente as pessoas queriam quando elas se aglomeraram em volta de sua torre clamando por ajuda.

Aquela velha senhora, que perdera o maiô, havia sido sugada pelo mar e agora estava em maus lençóis de água salgada. Vez ou outra se via a cabecinha da velha tentando respirar e seus braços a agitar desesperadamente. Fidel latiu alto e Leleco num ato heroico pegou sua prancha de surf e saiu correndo em direção a água sob o olhar atento de todos. As garotas suspiravam vendo-o passar. Leleco se atirou na água e remou furiosamente em direção à velha, mas eis que de repente algo tira a concentração do nosso herói. “Olha que esquerdinha, Brow... tá pra mim!” Leleco nem titubeou, virou sua prancha e dropou no que considerou a melhor onda do dia.

A cada paulada de backside na cara da onda ele via a galera vibrar na areia e isso dava a ele cada vez mais confiança. Ele foi quebrando a onda de todo o jeito e até achou um tubinho apertado chegando no inside, saindo com água batendo em suas costas. “Uhhhhuuuuu!” gritou. E quando passou um helicóptero por cima de sua cabeça ele pensou se tratar de algum fotógrafo de alguma revista de surf qualquer. “Caraca! Vou ficar famosão!”

A galera ia indo mesmo a loucura quanto mais perto da praia ele chegava, tanto que quando ele chegou veio todo mundo correndo para cima dele e ele já se imaginou sendo erguido. Mal notou a expressão de raiva nas pessoas. E quando todos se juntaram em cima dele, veio uma voz parecida com um trovão, vinda lá de trás, e o que foi bom, pq a galera se dispersou. “Leleco!”

‘Ixxiii?!’ Pensou. ‘Lá vem o Bomba.’ O Bomba era o chefe dos salva-vidas, bom com as bombas, bom com as gatas e zero de surf. Além disso, costumava falar gritando com quem achava ser inferior a ele.

“Leleco, seu cabeça de parafina! Onde você estava? Quase que essa moribunda se afoga na minha praia!” Esbravejava apontando para a pobre senhora que já recebia atendimento fora da água.

Fidel interveio prontamente com latidos e rosnadas. ‘Sua praia?! Não sabia que aqui tinha dono!’

“E o que é esse cachorro aqui na praia?” Perguntou o Bomba encarando Fidel.
“É o Fiel!”
‘Me segura que eu vou te morder!’ Dizia o cão se enroscando por entre as pernas do Leleco.
“Seu cão?! Não me admira essa parte da praia ser imunda! Agora some da minha frente e tira essa droga desse cachorro daqui da praia! Você não leu a faixa que eu mandei você colocar a semana passada na praia? Vai lá olhar!”
Leleco já tinha virado as costas com Fidel seguindo-o fielmente, mas ainda teve que ouvir. “E se amanhã você não estiver no seu posto ou se cometer mais uma falta eu vou te explodir e fazer sabão desse cachorro!”

“Vamos Fiel!” Disse apenas, enquanto que seu amigo teimava em morder de qualquer jeito o Bomba. ‘Como assim me fazer de sabão?!’ Indignou-se.
“Ufa! Que dia hein Fiel... vamos para casa?”

Os dois seguiam para casa e Leleco ia pesaroso, pensando se realmente cometera alguma falta, mas de repente alguém puxou conversa “E aí Leleco, altos tubos hoje?”

“Altos tubos não, mas eu dei altas batidas!” Pesaroso, mas nada que um bom papo de surf para fazer esquecer os aborrecimentos. Para completar, sua mãe havia lhe preparado seu jantar preferido. “Uau!!! Pizza de mozzarela, guaraná e DVD de surf!”.

“Mãe, você é a melhor!” Dizia entre um pedaço e outro, sem desgrudar o olho da telinha.
“Coma tudo direitinho Lelê, amanhã vc tem muito trabalho pra fazer e quero meu filho forte para cuidar das pessoas!”
“Podicrê!”
“Como foi seu dia hoje, meu filho?!”
“Meu dia? Ahhh O cara lá, o Bomba, colou na minha pra ver qual era, mas eu zuei geral e saí de rolê! Pior que a moribunda quase se foi!”
“Moribunda?” Perguntou a mãe que se esforçava, mas que nunca entendia uma palavra do que aquele seu filho queria dizer.
“Eh! Acho que era o nome dela!”

Fidel ergueu a cabeça admirando-o ‘Nome dela? Achei que se referiam ao estado em que ela se encontrava... mas se Leleco diz então deve ser! Leleco é muito inteligente, tenho orgulho de seguir alguém como ele!’

No dia seguinte o despertador não tocou. Leleco sempre se esquecia de colocar ele para despertar e por isso, mais uma vez, ele foi acordado pelo seu cão fiel, Fidel.

Os dois comeram o belo café da manhã preparado pela mãe de Leleco, “Saco vazio não para em pé!”, e foram para a praia, local de trabalho do nosso afortunado herói. “Ei Fiel?!” Disse ele se recordando do dia anterior.

“Tu vai ter que ficar de bituca por aqui!” Apontou para a calçada, embaixo da torre salva-vidas. “Se o Bomba te pegar ele vai fazer sabão de você e me explodir!” Leleco nem imaginava como o Bomba faria aquilo, mas tinha certeza de que ele faria.

Aquele dia ninguém apareceu na praia, nem mesmo o Sol. Apenas um mormaço com uma previsão de uma chuva fina para o final da tarde indicando a aproximação de uma frente fria. “Pior que nem trouxe meu casaco!” Dizia Leleco tiritando de frio.

‘Como o Leleco é determinado!’ Observava Fidel, que não ligava para o frio, na calçada, debaixo da faixa “PROIBIDO ANIMAIS NA PRAIA!”. ‘Nem essa garoa fina e esse vento gelado tiram ele das suas obrigações!’.

“Argh!” Leleco observava o mar com seu binóculo. “Mar tosco... muito vento... sem ondas... sem diversão... talvez aumente para amanhã... vou checar as condições!” Leleco entrou para dentro do seu observatório e decidiu que ficaria ali até seu turno acabar. Sua mãe havia instalado um verdadeiro quarto ali para que nada lhe faltasse. Tinha TV, som, computador, sofazinho, microondas, frigobar e até uma cama para que ele pudesse tirar um cochilo.

“Ei Fiel!” Gritou, pondo a cabeça para fora da janela e antes de se entocar indefinidamente. “Vai pra casa! Não posso te convidar para subir, pq o Bomba pode aparecer e fazer de vc sabão!”

Fidel baixou as orelhas e encolheu o rabo. ‘Ainda pego essa Bomba!’ Pensava em seu íntimo.

Leleco se sentou de frente para o computador e comendo a refeição que sua mãe havia feito acessava um site de surf. “Hoje tem WCT ao vivo!” Empolgou-se. Ele estava tão compenetrado que nem ouviu gritos abafados pela chuva. Para completar, os vidros da torre estavam completamente embaçados devido ao mal tempo.

Lá fora, no mar, havia um surfista que tinha passado despercebido pelo binóculo de Leleco e que agora se encontrava em apuros. Tivera uma câimbra na perna e agora não conseguia sair da água. Mas Fidel, que seguia para casa, ouviu seus gritos de socorro e correu de volta para a Torre Salva-vidas.

“Posso não conseguir salvá-lo, mas com certeza meu amo o fará!”

Fidel começou a latir muito alto do lado de fora e Leleco, por sua vez, assistia com preguiça o WCT enquanto almoçava. Ao perceber que Fidel havia voltado, ele abriu a porta e o chamou. “Vamos Fiel! Pra dentro antes que o Bomba faça sabão de você!” No entanto, Fidel abocanhou sua perna e o puxou até a areia. “O que você quer?” E Foi então que Leleco pode ver e ouvir o surfista em apuros. Ele nem pensou duas vezes, se é que ele pensa, e pegou sua prancha para se atirar no mar.

‘Já diziam que Deus escreve certo por linhas tortas!’ Analisou Fidel ao ver o mar sem ondas, pois inusitadamente Leleco nem prestava atenção ao mar devido as péssimas condições de surf e sim ao surfista em apuros. Mas chegando perto, ele olhou para o surfista e sentou na prancha, vendo-o se afogar.

“Aqui! Socorro!” Gritava o surfista em apuros. Mas Leleco coçava a cabeça. Ele não conseguia se lembrar o que deveria fazer a partir daquele ponto. “Joga a prancha!” Gritou o surfista e Leleco prontamente atendeu como se um estalo fizesse iluminar seus pensamentos.

Após o surfista subir em cima da prancha, Leleco trouxe o surfista são e salvo para a areia. Mas para o azar do surfista, Leleco tentou, ofegante, fazer uma respiração boca a boca, mas o surfista o empurrou para o lado e disse “Sai para lá jacaré! Eu tive câimbra e não afogamento!”
“Podicrê!”
“Pior que essa câimbra não passa!”
“Podicrê!”
“Ahhh!” Gritava o surfista tentando esticar a perna para fazer passar a câimbra. “De qualquer forma obrigado, você me salvou!”

Logo os dois estavam lado a lado, esbaforidos no meio da tempestade. Leleco o ajudou a levantar e foram em direção ao observatório.

“Por falar nisso, você viu minha prancha?” Perguntou o surfista que pelo que seus cabelos grisalhos indicavam, já ia lá para os seus 50 anos.
“Vi sim!” Respondeu Leleco. “Ela foi sugada pelo mar. E a essa altura deve estar na África!”
Um ataque de riso tomou conta do ambiente. “Ei você é legal! Qual o seu nome?”
“Leleco!”
...
“Bom, se você não pergunta eu digo o meu. Paulo!”
“Podicrê!”
Paulo observava Leleco que até o momento não tinha parado de olhar para o mar. “No que você está pensando?”
“Que amanhã vai estar grande mesmo!”
‘É isso aí?! Meu amo é um profeta nato!’ Fidel corria para lá e para cá, latindo para o vento.


E. Straub

domingo, 19 de setembro de 2010

Certa Vez Alguém Escreveu...


Juréia das lindas matas e cores,
Dos lindos pássaros e cantos,
Dos verdes morros protetores,
Das brisas suaves de verão,
Das águas limpas e claras,
Das areias brancas e macias,
Do celestial azul do céu,
Do oceano em sua pureza,
Dos carcarás e dos ares,
Das tartarugas e dos mares,
Das preguiças em embaúbas,
Dos encontros e encantos,
Do silêncio interior,
Da paz da alegria,
Da amizade nas palavras,
Da plenitude da vida,
Da imensidão no aconchego,
Da harmonia complacente,
Vivendo ternamente,
Profunda e eterna,
No coração de nossas almas.


E. Straub
(Seguindo a voz do coração...)

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Minha Amada Boracéia


Oh! Minha amada e idolatrada Boracéia,
Com teus morros soberbos,
Teu céu azulado,
Tuas areias pisadas,
E tua água cristalina.

Local propício à vida.
Onde pássaros piam ao amanhecer,
E urubus esvoaçam ao entardecer.
Onde o Sol dá lugar à lua,
Numa explosão cósmica e celestial,
Com estrelas como seu pano de fundo. 

Oh! Minha amada e idolatrada Boracéia,
Com tuas ondas gorducheiras,
Longas e cansativas.
Onde pegar a onda certa,
Significa bambear as pernas. 

Nunca uma onda foi tão cordial e amorosa
Para com os surfistas merrequeiros.
É a onda da fraternidade!
Onde surfistas de mãos dadas
A surfam desde a última arrebentação,
Até o mais longínquo dos guarda-sóis.
Lá onde o Bezerra faz a curva.
Formando uma corrente humana,
A corrente dos desgarrados e desgraçados surfistas,
Que pregueiam suas ondas com pranchas e mais pranchas. 

Oh! Minha amada e idolatrada Boracéia,
Que descanse em paz agora.
E espere por mim,
Com a chegada de uma nova frente fria,
Quando não puder optar,
Por nenhuma outra opção.

  

E. Straub

Primeira Conferência Internacional GBC Brasil

O Green Building Council Brasil, criado em março de 2007, é uma organização não governamental que surgiu para auxiliar no desenvolvimento da indústria da construção sustentável no País, utilizando as forças de mercado para conduzir a adoção de práticas de Green Building em um processo integrado de concepção, construção e operação de edificações e espaços construídos.
 

O GBC Brasil é um dos 21 membros do World Green Building Council, entidade supranacional que regula e incentiva a criação de Conselhos Nacionais como forma de promover mundialmente tecnologias, iniciativas e operações sustentáveis na construção civil.

 

O GBC criou então uma certificação chamada LEED (Leadership in Energy and Environmental Design) e a partir dela desenvolveram certificações para diversos empreendimentos da construção civil. Entre eles estão o LEED for New Constructions, LEED for Schools, LEED for Homes, LEED for Neighborhood Development, LEED for Existing Buildings - Operation and Maintanance, LEED for Core and Shell, LEED for Commercial Interiors, LEED for Retail (para lojas e hospitais). Eles diferem entre si na forma da abordagem para cada empreendimento e de se pontuar, mas o escopo é o mesmo para todos. Para tanto, cada documento LEED é dividido em 6 blocos, cada qual com um diferente propósito e pontuação. Eles são:

 

1.       Site Sustentável


2.       Eficiência para Consumo de Água


3.       Eficiência Energética e Atmosfera


4.       Materiais Recicláveis


5.       Qualidade do Ambiental Interior


6.       Inovação e Projeto

  Dia 01/09/2010 

As palestras iniciaram com o presidente do GBC Brasil, José Moulin Netto, falando do início do GBC Brasil e de como ele chegou a ser o que é hoje no Brasil.

 

Após ele, diversos outros palestraram, mas vou resumir alguns pontos que, ao meu ver, foram bem interessantes e importantes.

 

Nelson Kawakami – Diretor Executivo do GBC Brasil

 

A visão do GBC é a de educar, informar, se relacionar e fomentar, para só então certificar. A certificação é um facilitador para a compreensão do Meio Ambiente.

 

                Todo o investimento feito no empreendimento costuma retornar em 3 anos e após isso, os investidores tem apenas a lucrar com o baixo consumo de energia, água e aumento da produtividade dos funcionários por criar um ambiente mais adequado ao trabalho.

 

Hoje o GBC Brasil tem 201 processos para certificação LEED e já existem 19 projetos certificados.

 

Eduardo Jorge – Secretário da Prefeitura de São Paulo

 

Antes havia somente o equilíbrio social e econômico, hoje tem de haver equilíbrio com o meio ambiente também.

 

A cidade de São Paulo tem 11 milhões de habitantes e produz 17 toneladas de lixo por dia. São Paulo é uma das únicas cidades no Brasil que recolhe todo o seu lixo.

 Scot Horst – Vice Presidente do GBC 

O Scot Horst falou muito sobre liderança e fez muitas questões do porque não se construir de forma sustentável. Falou que precisamos nos engajar nessa causa, criar normas, criar líderes e disseminar para a população em geral.

 

Ele também falou sobre a qualidade do ar em ambientes internos, que pode se tornar um agravante para a saúde de todos se não for bem tratado. Ainda mais se o ambiente externo se tornar hostil o suficiente para termos que viver a maior parte do tempo dentro de edifícios.

 

Márcio Santa Rosa – Coordenador do Fórum Ecológico dos Jogos Olímpicos a ser realizado no Rio de Janeiro.

 

                Ele falou sobre algumas premissas em relação aos investimentos no Rio de Janeiro para os Jogos Olímpicos a serem focadas e dentre elas estão:


1.       Ambiente econômico favorável


2.       Criar ambiente logístico adequado


3.       Há demanda ascendente no mercado tecnológico da construção civil


4.       Marco regulatório e sistema de normatização estabelecidos


5.       Momento positivo para a construção civil


6.       Percepção para investimentos


7.       Desenvolvimento estratégico

 

Klaus Bode – Fundador do BDSP

 

Mostrou um caso de projeto sustentável e falou da importância de se haver uma comunicação maior entre projetistas, arquitetos, engenheiros e consultores ambientais. “As vezes não é necessário criar e introduzir tecnologias, com uma simples conversa entre arquitetos e engenheiros já podemos reduzir e muito qualquer forma de desperdício.”

 

Kent Peterson – Ex-Presidente da ASHRAE (normas técnicas)


               


Falou sobre as normas ASHRAE e principalmente sobre a 189.1. Falou de como é importante o comissionamento e de que temos de garantir que o empreendimento está respeitando em 100% o projeto.

 

Um ponto que achei bem interessante, foi quando ele disse que o que é bom para o EUA pode não ser tão bom para o Brasil e que, portanto, deveríamos criar nossas próprias normas.

 

Lair Krähenbühl – Coordenador dos projetos do CDHU

 

Falou que antes eles não se preocupavam muito com a qualidade dos empreendimentos, mas que agora eles tem feito o possível para conseguir dar o mínimo de conforto aos usuários. Mesmo porque, fazendo dessa forma, eles evitam os desperdícios e contribuem para o meio ambiente.

 

Paulo Freire – Vice Presidente da Johnson Controls BE Brasil

 

Falou da reforma do Empire State Building. De que parte da economia de energia do edifício foi feita com troca de materiais e equipamentos, mas que se não houver uma conscientização por parte dos usuários, essa economia não será como o esperado.

 

Jay Bhatt – Vice Presidente Senior da Associação de Arquitetura e Engenaria dos EUA

 

Falou muito sobre as necessidades brasileiras, de que precisamos de investimentos na faixa de 85 bilhões de dólares em infraestrutura e 26 bilhões de dólares para melhorar os processos industriais.

 

Falou também dos nossos desafios para agora na questão do consumo consciente de água, do crescimento populacional e consequentemente da demanda e de fazer regulamentos sustentáveis.

 

Laura Lesniewski – LEED AP

 

Falou sobre um caso de um tornado que destruiu uma cidade americana e de que como os moradores, numa ação em conjunto, refizeram a cidade que é modelo de sustentabilidade em todo o mundo. Foi pensado desde a concepção da cidade até o material utilizado nas casas.

 

Outro dado interessante que ela deu, foi de que se todos no mundo vivessem da mesma forma de que um norte americano vive, hoje precisaríamos de 5 planetas para viver.

  Dia 02/09/2010 

No segundo dia haviam 5 salas que falavam de temas diferentes sobre sutentabilidade. Esses temas eram pré-escolhidos no momento da inscrição. O tema que eu escolhi foi sobre Recursos Hídricos e abaixo segue algumas das palestras que ocorreram naquele dia.

 Wilson Passeto 

Falou sobre o uso racional da água, de que temos de ter educação, saber gerir ela, que envolve cuidado, solidariedade e co-responsabilidade por parte de todos.

 

Levantou a questão do porque não desenvolvemos as cidades primeiro ao invés de investirmos em petróleo e mineração. Falou de nossas prioridades e de que ao seu ver elas são:

 

1.       Água


2.       Uso do Solo Urbano


3.       Resíduos


4.       Materiais


5.       Energia

 

Falou também de que qualidade garante durabilidade e que a durabilidade dos materiais na construção civil tem de ser no mínimo de 30 anos.

 

Virgínia Dias Sodré – Diretora Comercial da Infinity

 

Palestrou sobre o reaproveitamento das águas de chuva. Definiu o que é água pluvial e água de chuva e nada mais é que a água de chuva é a água que cai, já a água pluvial, a água que entra em contato com o chão e, portanto, pode se contaminar.

 

Ela falou também sobre sistemas para captação e reuso de água e de uma tecnologia surgindo no mercado chamada de MBR (Membrana Bioreactor), que são umas peças de plástico parecidas com uma rosca, onde são inseridas num determinado momento no tratamento da água e a função dela é a de formar nichos de bactérias.

 Oswaldo de Oliveira Júnior               

Falou sobre os sistemas de medição de água e de que devido a pressão na tubulação de uma edificação é maior que numa residência, seu consumo também é maior.

 

Falou também que as medições tem de ser individualizadas, pois só assim o indivíduo dará mais valor ao produto que ele recebe.

 

Marco Yamada – Representante da Deca e Duratex

 

Falou sobre os diferentes ambientes numa residência e da relação do consumo para eles em diferentes tipos de empreendimentos.

 

Marisa Plaza – Coordenadora Técnica da Falcão Bauer

 

Falou sobre o selo Falcão Bauer que visa identificar produtos com o menor impacto ambiental, seguindo as normas técnicas de manufatura do produto. Explicou também o processo que eles fazem para dar a determinado produto seu selo.

 

Newton Figueiredo – Presidente do Grupo Sustentax

 

Explicou sobre o selo que sua empresa desenvolveu e que a baixa produtividade e o desperdício são os dois maiores inimigos da sustentabilidade. Falou também na mudança do conceito de marca e selos, de que antigamente o consumidor comprava algo pela marca, hoje ele exige que o produto tenha certificações e garantias.

 

As categorias que levam eles a dar seu selo para um determinado produto são:


1.       Salubridade


2.       Qualidade Comprovada


3.       Responsabilidade Social


4.       Responsabilidade Ambiental


5.       Comunicação Responsável

 

Manuel Carlos Reis Martins – Processo Aqua

 

O Aqua, assim como o LEED, é uma certificação para empreendimentos que visam a sustentabilidade. Originalmente ele veio da certificação francesa HQE e foi adaptado para o sistema brasileiro.

 

Solange Nogueira – Gerente do Procel Edifica

 

O PROCEL promove o uso racional da energia elétrica em edificações desde sua fundação, sendo que, com a criação do PROCEL EDIFICA, as ações foram ampliadas e organizadas com o objetivo de incentivar a conservação e o uso eficiente dos recursos naturais (água, luz, ventilação etc.) nas edificações, reduzindo os desperdícios e os impactos sobre o meio ambiente.

 

O consumo de energia elétrica nas edificações corresponde a cerca de 45% do consumo faturado no país. Estima-se um potencial de redução deste consumo em 50% para novas edificações e de 30% para aquelas que promoverem reformas que contemplem os conceitos de eficiência energética em edificações.

 

Buscando o desenvolvimento e a difusão desses conceitos, o Procel Edifica vem trabalhando através de 6 vertentes de atuação: Capacitação, Tecnologia, Disseminação, Regulamentação, Habitação e Eficiência Energética e Planejamento.

 

Péricles Arilho – Vice Presidente da BRAMEX

 

Falou sobre o UL – Underwriters Laboratories, que vem testando produtos e escrevendo normas técnicas para a segurança de todos.

 

Juliana Malho – LEED AP – Representante da Cushman & Wakefield

 

Apresentou um caso de um shopping feito de forma sustentável no interior de São Paulo, dos problemas enfrentados e de como foram solucionados.

  Todas as palestras em si foram bem interessantes, mas o mais importante foi perceber como os diferentes setores da economia da construção civil no Brasil e no mundo estão vendo e se mobilizando para tratar sobre esse assunto tão importante que é a sustentabilidade. Esse é o futuro da construção civil e quem não agir de forma coerente e sustentável estará automaticamente fora do mercado.

Olhos Mágicos

“É essa!” Peguei firme com as duas mãos uma 6’3’’ degrade verde e amarela nos fundos da casa de alguém que se dizia um feitor daquelas maravilhas.

“Seu pai sabe que você está aqui?” Um amigo mais velho, que se tornaria meu cúmplice e exemplo, me olhava desconfiado, se certificando de que toda aquela história não acabasse sobrando também para ele.

Foi assim que iniciei minha vida perto das ondas, lugar onde nunca mais desejei me afastar. Na verdade, ela tinha se iniciado dois meses antes, em dezembro de 1994, revezando uma prancha emprestada numa praia incrustada no meio do litoral norte paulista com mais três amigos, que o tempo mostrou não terem tido a mesma sintonia com o mar.

O que realmente me levou a amar esse esporte não sei ao certo, mas a liberdade e o misticismo que o cercam foram fatores fulminantes. Eu podia simplesmente sair flutuando mar afora em cima apenas de uma tábua de poliuretano revestida com fibra de vidro e, quando voltasse moído para casa, poderia ler sobre histórias de lendas como Eddie Aikau ou heróis não identificados despencando de morras gigantes em Waimea Bay ou sendo encobertos pelo lip assustador de Pipe.

Mas voltando a liberdade, quando estava lá fora, sentindo a ondulação passar por mim, eu me esquecia de qualquer problema que pudesse ter. No céu, minha visão era disputada pelo voo de albatrozes, gaivotas e urubus, na água, apenas a linha do horizonte me interessava, tentando antever alguma onda que passasse despercebida, vindo com meu nome escrito nela.

Claro que no início ainda não possuía olhos de surfista, estes viriam com o tempo, mas era esperto o suficiente para saber me guiar pelos mais experientes. E uma das primeiras coisas que aprendi foi remar quando via os outros remando e, principalmente, em dias grandes, quando enxergar uma onda mais atrás fica complicado. Essa estratégia já me salvou inúmeras vezes de ser esmagado e de me dar uma estranha coloração roxa, quando ficar parado, vendo outros surfistas saindo em disparado para o outside, pode significar uma péssima opção. E faço um adendo de que quanto mais desesperados eles remavam, mais desesperado eu remava também.

Difícil também era enxergar se o mar estava realmente bom ou não, afinal, o importante era estar lá, sentindo aquela liberdade, longe de tudo e todos, em perfeita harmonia com a natureza, e por isso, os olhos que sempre chegam antes dos de surfista e podem ou não continuar ao longo da vida são os olhos mágicos. Estes sim são os que nos fazem apreciar cada segundo em cima de uma prancha ou de alguma outra atividade que amemos fazer. Fosse o tempo que fosse, o frio que fosse, o mar que fosse, o crowd que fosse, eu sempre estava lá conferindo, surfando com um sorriso largo estampado de face a face, admirando a magia com que a natureza formava cada onda.

Internet?! Quem precisa de internet quando se tem imaginação? Quando se tem olhos mágicos? Naqueles tempos a internet estava nos primórdios e pensar que um dia poderíamos ver uma ondulação entrando em tempo real do outro lado do mundo era surreal. Portanto não era difícil entender o porquê passava horas e horas dentro da sala de aula imaginando o quão perfeito o mar deveria estar e, se não bastasse imaginar, eu tinha que eternizar aqueles momentos nos meus cadernos. Em todos eles. Não me importando se eram apenas esboços, pois meus olhos mágicos davam cor, forma e movimento para os mesmos.

Um dia, quando ainda me vangloriava de fazer uma sessão de surf sem acertar com minha prancha um único pobre infeliz sequer e meu maior pesadelo era sonhar que eu não conseguia mais ficar de pé para deslizar reto numa onda já tentando virar na base, costumava perguntar humildemente a surfistas, cujos cabelos grisalhos delatavam sua experiência. “Como você faz para ir mais rápido na onda?” De vez em quando um daqueles senhores de pranchões bem que tentava alguma explicação, mas como em tudo o que você tenta conversar mais seriamente no mar, sempre acabava num “Você pega com o tempo!”, já me fazendo a boia para pegar a de trás.

Mas não é que eles estavam certos e eu aprendi a acelerar antes mesmo de dominar por completo a arte de permanecer sentado na prancha?! E logo, aqueles mesmos surfistas que eram antes pegos de surpresa em meio a tanta indagação, se viam rendidos a velocidade com que um garoto com força de vontade pode evoluir. Três meses depois já ensaiava um cut back e seis meses depois já estava acertando a primeira batida. Eu nunca tive o surf de um garoto prodígio, aliás, anos mais tarde, percebi que nunca fui o melhor no que me propus a fazer, mas sempre me destaquei. Por conta disso, hoje sei que cometia e ainda cometo muitos erros na minha linha, mas eles, perto da vontade com que encaro as ondas são meros coadjuvantes.

Com o meu surf numa evolução constante, era natural querer sair e desbravar outras ondas. Por isso, minha primeira surf trip fora escalar algumas pedras e me jogar no mar da praia ao lado. Vestindo um short john, acordei um amigo as 5:30h de uma manhã fria de inverno, com o orvalho da grama queimando nossos pés, para podermos aproveitar o quanto pudéssemos do terral e da solidão congelante. Fora numa manhã assim que vi pela primeira vez uma parede líquida cristalina me encobrir para segundos depois me arremessar paralisado e maravilhado para o fundo do mar.

Mas aquilo havia sido o bastante e meu sangue passou a fervilhar todos os dias que via que o mar podia me proporcionar aquela sensação novamente. “Quero ser um tube rider!” Dizia sempre sem ao menos saber o que significava a palavra “rider”. Aliás, essa não foi a única palavra que aprendi nesse novo meio e após certo tempo já tinha enriquecido e muito minhas expressões e gírias. Tanto que quase me tornei incomunicável. Mas ao contrário da minha dificuldade de me expressar verbalmente, meu surf fluía de vento em popa e quando vi um surfista dando um 360º numa junção de respeito, mudei totalmente minha visão do surf. Pelo menos foi até eu quebrar acidentalmente minha quilha do meio e perceber que essa manobra é um mero truque. Mas e daí? Quem sabia disso?

E assim que fui me desenvolvendo ao longo dos anos, mas ao mesmo tempo em que meu surf evoluía e meus olhos de surfista eram aprimorados, sem perceber, fui perdendo uma coisa importantíssima para mim. Como se aquela frase de que não se pode ganhar algo sem perder algo fosse a maior verdade do mundo. Comecei a ficar mais crítico em relação ao mar e as mesmas ondas que antes sempre me pareceram perfeitas, começavam a se apresentar não tão boas. Os invernos começaram a ficar mais frio a cada ano, o vento parecia nunca mais acertar e as ondas sempre gorduchas ou fechadeiras. Nem vou mencionar o fundo, esse sim parecia que deixou de colaborar de vez. E um dia, sentado num banco feito de um tronco de árvore de frente para o mar que me acolheu, perguntei para um amigo o que será que tinha acontecido. “Por que antes era tão melhor que agora? Deve ser o efeito estufa estragando o mundo inteiro ou a irresponsabilidade das pessoas construindo casas na orla e ameaçando as praias brasileiras?” Tudo isso tem sua razão, mas a bem da verdade, e que me dei conta só um tempo depois quando meu desejo de surfar havia se tornado mais uma mera obrigação, é que tinha perdido o brilho dos meus olhos ao ver uma onda. Eu havia perdido meus olhos mágicos.

Quando percebi isso me senti péssimo, mas de alguma forma entrar a fundo dentro de mim foi também minha salvação. Eu tinha então duas possibilidades. A primeira era a de me esconder de mim mesmo e a segunda era a de sair em busca dos meus olhos mágicos novamente. Eu não tive dúvidas, juntei o pouco de grana que ainda me restava no banco, dei uma geral na casa e recomendações para um vizinho continuar dando comida e água para um gato que vivia e ainda vive ali para fazer uma surf trip. A primeira internacional. O local escolhido? Costa Rica é claro! O filme de Bruce Brown, Endless Summer II, tinha me feito sonhar acordado por muito tempo para esquecê-lo e a expressão de felicidade de Pat O’Connel mandando ver em Playa Negra e Roca Bruja junto com Wingnut para mim já era o suficiente. 

(continua...) 

E. Straub