quinta-feira, 14 de julho de 2011


Insano Paulo

Jair não sabia o que fazia ali, ou melhor, como o haviam convencido disso. Dias antes, após um surto mental daqueles que só quem vive numa megalópole como São Paulo sabe como é, mas nem sempre de onde vem, que ele resolveu seguir um conselho de um amigo de trabalho. “Jair, você está precisando de ajuda profissional!” Dizia ele.

Já dentro do consultório, vendo que Jair agarrava suas calças com suas trêmulas e suadas mãos, o doutor aproveitou para criar um clima de suspense. “Sabe o que é Jair! Você tem uma variação de uma síndrome não muito rara nos dias de hoje... mas não disse que sua síndrome não é rara hein, veja bem?!” O doutor ajeitou os espessos óculos.

‘Mas o que é doutor? Vamos, fale logo!’ Jair disse em seu íntimo, já que a danada da ansiedade segurou sua língua para bater seus dentes.

“Você já ouviu falar na Síndrome do Pânico, não?”

Jair fez que sim com a cabeça.

“Pois bem,” O doutor prosseguiu. “você tem a Síndrome do Homem São.”

“Síndrome do Homem São?” Jair repetiu franzindo a testa. “Mas que diabos é isso?”

“Você é muito são para essa cidade?”

“São?! São é você!” Jair retrucou indignado meio sem saber como dizer.

“Muito bem Jair, vou tentar me explicar melhor. Todos os seres vivos, incluindo nós, é claro, tendem a se adaptar ao seu meio. Seja de um jeito, seja de outro. Logo, se você é são e vive numa cidade de loucos como São Paulo, quem tem problema aqui e precisa de tratamento não são os outros, mas sim você.”

Naquele instante o mundinho de Jair desabou, afinal, ninguém ainda havia formado sua opinião sobre o assunto para ele rebater aquela afronta a altura. Seus olhos estavam longe, vencidos. O doutor, ao contrário, apoiado com seus dois cotovelos sobre a mesa batia as pontas dos dedos.

“Mas e então, Doutor? O que eu faço? Isso tem cura?” Jair voltou do transe e olhou para seu salvador, dando-lhe uma prescrição médica e esboçando um leve e sádico sorriso.

“Vai mais devagar, por favor!” Jair implorava momentos depois na garupa de uma moto.

“Aí chefia, já não te falei pro senhor que tudo o que você tem que fazer é deixar essa tua boca escancarada e gritar o quanto quiser?! A magrela é minha, quem tá dirigindo ela sou eu e não to aqui pra ouvir ninguém dizer como tenho que fazer meu serviço! Tu nem meu chefe é?!” Dizia o motoboy costurando Deus, seu chefe e o mundo na Marginal Pinheiros em pleno rush de final de tarde.

“Você não sabe que morrem dois motoboys por dia em São Paulo?” Jair tentou um último apelo.

“Morrem dois e chegam mais mil!” O motoboy se divertia. “Além disso, não sou motoboy, sou mototaxista!”

A viagem foi curta para desespero de Jair, mas assim que avistou o Estádio Cícero Pompeu de Toledo ele deu graças aos céus, pois pensou seriamente que seu destino final fosse alguns metros antes, dentro de um hospital que tem o nome de um famoso físico. Jair só foi se recompor do susto numa barraquinha Mimi em frente ao estádio. “Água aqui não tem não doutor, mas te faço duas biritas pelo preço de uma! É tiro e queda!” Disse o barman de Paraisópoles colocando o pequeno copo em cima do balcão improvisado.

Jair aceitou a oferta e uma outra logo depois quando lhe ofereceram uma camisa do Corinthians. Ele nunca havia torcido por time algum, mas como o jogo era entre Corinthians e São Paulo acabou optando pelo primeiro. O jogo foi muito bom, diga-se de passagem, pena que Jair não viu, pois foi barrado na catraca depois de ter comprado o ingresso com um cambista duvidoso. Mas se ele não viu o jogo, tampouco viu o arrastão que fizeram na saída do estádio depois da pelada.

Talvez por isso não tenha se desanimado, pois naquela mesma semana Jair se matriculou numa academia de ginástica. Peito, pernas, braços, costas, abdominal. ‘Mas que chatice!’ Não cansava de se comparar a um rato de laboratório disputando força com cavalos. No entanto, até que aquilo fez bem a Jair, pois, resolveu aproveitar uma noite enluarada numa baladinha da Vila Madalena. Cortou a cidade e o trânsito inteiro por baixo e na falta de gosto musical, optou pela casa mais movimentada. ‘Cheia, barulhenta e mal cheirosa!’ Pensou assim que entrou, mas rapidamente mudou de idéia ao ver os belos pares de saia que iam e vinham. Dessa vez Jair nem pensou em pedir água e foi direto para a birita.

Com dor de cabeça e diante de um feriado prolongado devido ao aniversário da cidade, Jair resolveu fazer algo que não fazia há muito tempo, antes, porém, precisava pagar uma conta. Achou que seria rápido, mas a fila acenava o contrário já da porta do banco. ‘Caramba!’ Se angustiava. ‘Sol brilhando, a praia logo ali... e eu aqui!’. No entanto, ele não se intimidou, muito pelo contrário, seus olhos faiscaram. E apontando para o final da fila berrou para quem quisesse ouvi-lo.

“Aquele senhor ali está furando fila!”
Um alvoroço se formou dentro do banco e enquanto todos se cotovelavam para ver o infrator, Jair, de fininho, saiu de onde estava e foi andando de costas até o mais próximo que conseguiu chegar do balcão de atendimento. Quando todos, frustrados, começaram a se virar de frente para o balcão novamente, ele se infiltrou na fila como num passe de mágica. “Quanta barbaridade!” Ainda comentou com uma senhora às suas costas.

Jair saiu do banco se sentindo vivo, livre, mas logo o congestionamento na Avenida dos Bandeirantes, a lentidão no acesso para a Rodovia dos Imigrantes, a praça de pedágio de R$20,00 e a serra parada o fizeram mudar de idéia rapidamente. Logo aqueles pensamentos poluídos esvaíram-se de sua mente ao ver as belas luzes da cidade de Santos. ‘Como a cidade cresceu...’ deslumbrou-se.

Meses depois, Jair decidira que já era tempo de enfrentar o seu temor. A causa do efeito. Tocou duas vezes a campainha da casa de sua irmã. O barulho dos passos correndo pela sala o fez estremecer, mas ele segurou firme a barra.

“Tio!” Seus três sobrinhos endiabrados o aguardavam.

“Estão prontos?” Os três correram para dentro do carro.

E lá de cima de um brinquedo chamado Elevador, com uma cara tão apavorada quanto a dos seus sobrinhos, Jair se segurava com todas as suas forças para não cair antes do carrinho. Momentos antes, o monitor do brinquedo falou num tom vil.

“Peço a todos muita atenção e caso alguém desista no meio do caminho, levantem seus dois braços, cruzem os punhos na altura da testa e eu prometo descer vocês o mais rápido possível!”

Foi ali, naquele parque de diversões que fica na Rodovia dos Bandeirantes, onde todos os atendentes tem de forçar um sotaque engraçado para fingirem que são de outro país, que o tal do doutor, que há muito não o via, o viu pela última vez. E ao notar a expressão de angústia de Jair, lembrou de sua prescrição médica e riu consigo mesmo.

“Ah! A insanidade! Como seríamos felizes sem ela?”


E. Straub

sábado, 2 de julho de 2011


Esperança Recôndita

Enfim a liberdade! Como ela gostava de estar livre por aí, sair de sua clausura e seguir para casa. A sua casa! Será que seus irmãos também estariam por lá? Bom, isso pouco importava para ela, se é que alguma vez importou. O que ela queria mesmo era percorrer por todas aquelas ruas atarefadas, se esticar um pouco e viver. Ela não se importava com as multidões, tampouco desejava se juntar a elas. Para ela, ser uma mera expectadora já bastava. Afinal, ela também era uma cidadã e merecia ser tratada com dignidade.

Por se sentir como parte daquele todo, resolvera deixar seus instintos aflorarem no verde que cobria o topo dos arranha-céus. Estes, que se antes pareciam engolir as cidades, hoje se harmonizavam com as demais obras divinas, como se tivessem sido desenhadas pelo próprio Criador. Era verdade que os telhados de outrora contribuíam para o aquecimento do mundo, no entanto, o mesmo não ocorria naquela cidade, pois os telhados gramados ajudavam a suavizar o calor e melhorar o frescor dos finais de tarde.

Depois de rabiscar com os pés a terra que produzia nutrientes para a grama se desenvolver, ela retomou seu percurso, mas não sem antes se admirar num daqueles vidros que cobriam os edifícios. Ao ver sua face refletida, mal teve tempo de recordar que há pouco estava do outro lado, observando o contraste da monotonia hipnótica das poucas nuvens que cobriam o céu com o andar trombado dos transeuntes, sempre aflitos, sempre com pressa. Mal se recordou que alguém entrou em seu recinto e lhe entregando um bilhete a pôs para fora, para a liberdade. Muito agradecida ela ficou, mas pouco demonstrou.

Algo em que ela nunca havia reparado fora na utilidade daqueles arranha-céus envidraçados. Os vidros não serviam somente para a estética, para embelezar a arquitetura moderna, os vidros também tinham outra utilidade, eles captavam a pouca luz solar que adentrava pela atmosfera terrestre e a transformava em energia. Como se os edifícios também tivessem vida e aquele fosse seu alimento.

Pouco abaixo, passando pelas ruas incrivelmente limpas, ela se deteve num daqueles locais onde informações são vendidas e a comida é farta. Juntou-se a dois homens distintos, que discutiam em meio a imagens holográficas coisas que não entendia. “Antigamente se usava um substrato das árvores para fabricar um material chamado papel. Nele, eles imprimiam tinta, juntavam algumas folhas e propagavam as últimas notícias do mundo.” Dizia um deles ao outro, boquiaberto, que tentava imaginar a equação insolúvel de quantidade de lixo produzido e matéria prima exaurida.

Realmente, lixo era uma coisa que não se via naquela cidade. O que era descartado não virava lixo, virava resíduo e esse resíduo era separado do jeito que seus avôs haviam ensinado a seus pais. Todo ele era levado para locais específicos nas calçadas, onde dutos muito bem sinalizados percorriam todo o subterrâneo da cidade até chegarem a uma central recicladora. O cidadão tinha apenas que abrir o duto correspondente ao resíduo, jogar o que seria descartado gargalo adentro e deixar que o ciclo se fechasse.

Um pouco cansada e vendo que o dia ameaçava uma despedida, resolveu se apressar passando rápida e invisível por todo o caminho que cortava a cidade para chegar ao local que os abastecia. Plantações de sumir de vista formavam um anel verde ao redor da cidade. E de cima de uma das poucas árvores que não os agraciavam com frutos, ela olhou para o espetacular perfeccionismo das máquinas, que mantinham incansavelmente tudo aquilo vivo. Nenhuma pessoa colocava as mãos nas plantações, tudo era feito por robôs bem programados. A irrigação vinha por baixo. Enormes receptáculos de água permaneciam abaixo de toda a cidade. Eles eram abastecidos pela água da chuva, que precisava ser tratada por ser considerada ácida demais, e por poços muito profundos, que transpassavam as rochas sãs que a poluição de outros tempos não conseguiu se infiltrar. Não havia rios atravessando a cidade, mas pontos de água foram equilibradamente colocados. A água sempre fora o elemental mais importante para a vida e por isso a necessidade de sempre tê-la por perto.

Aquele local era tão bom e tão relaxante, que ela resolveu se recostar e passar uma última noite agradável ao relento. Já no dia seguinte, após se fartar de frutos pela manhã, chegou ao seu destino. Quem será que a receberia? Nem ao menos essa pergunta ela se fez durante todo o percurso. No entanto, com lágrimas nos olhos, um homem a pegou delicadamente em suas mãos e a abraçou. Ela não retribuiu o abraço, mas pode sentir todo o seu afeto. Ela se calou e cerrou os olhos por uns instantes para apreciar melhor aquele momento. Como era bom estar em casa de novo. Só então o homem pegou o bilhete, leu-o e, após uns instantes, beijou sua face. Com todo o cuidado do mundo ele a pôs num recipiente a vácuo e lançou-a na atmosfera.

Voando para bem longe da redoma de vidro que recobria toda a cidade e que a protegia dos raios nocivos do Sol. Fazendo o papel de uma das camadas atmosféricas que fora destruída há muito. Ela batia suas asas, sentindo-se totalmente liberta, avistando, sem entender, todos aqueles inúmeros cata-ventos e painéis solares que se somavam ao abastecimento de energia de toda aquela cidade. Outro homem, que a tudo observava, quebrou o silêncio.
“Você sabia que há mil anos os pombos eram considerados sujos?”
Ao que o outro, vendo-a partir e a esperança retornar, sorriu.


E. Straub

terça-feira, 5 de abril de 2011

HUMANIDADE

Introdução
[Dm A E]x2
Degelo das calotas polares,

Aumento do nível dos mares,

Matança desenfreada,

Afrodisíacos, peles, marfins.

Parte 1
E E F# G F# E
Usinas nucleares,
E E F# G F# E
Vomitando radioatividade,
Dm Dm E F E Dm
Carros ensurdecedores,
Dm Dm E F E Dm
Arrotando CO2,
E E F# G F# E
Emissários submarinos,
E E F# G F# E
Manchando nossas costas,
Dm Dm E F E Dm
Moto-Serras enfurecidas,
Dm Dm E F E Dm
Decapitando nossas matas.

Refrão
[A B E]x2
Tufões, Tsunamis e Terremotos,
Aguardamos por outro salvador.


Riff
[E B D A C C G C Dm B E]

Parte 2

E E F# G F# E
Brincando com a genética,
E E F# G F# E
Bancando os Homo Sapiens,
Dm Dm E F E Dm
Atirando em baleias,
Dm Dm E F E Dm
Praticando civilidade,
E E F# G F# E
Guerra ao narcotráfico,
E E F# G F# E
Guerra ao terror,
Dm Dm E F E Dm
Guerra ao petróleo,
Dm Dm E F E Dm
Guerra para todos nós.

Refrão
[A B E]x2
Tufões, Tsunamis e Terremotos,
Aguardamos por outro salvador.


Riff
[E B D A C C G C D B E]

Parte 3

E E F# G F# E
Buscamos por novos mundos,
E E F# G F# E
Fome insaciável,
Dm Dm E F E Dm
Indiscriminadamente e impunes,
Dm Dm E F E Dm
Matamos nossas almas.

Refrão
[A B E]x2
Tufões, Tsunamis e Terremotos,
Aguardamos por outro salvador.


Riff
[E B D A C C G C Dm B E]


E. Straub

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Lá Vem Ela



E lá vem ela. Estrondosa, furiosa, rasgando o céu impiedosa. Acovardando, por vezes, até mesmo o mais valente. Cuspindo, arrotando, urrando, avançando sem dar trégua, deixando destruições em pequenos e grandes rastros. Pela frente, não há obstáculos. Sejam vias congestionadas, campos verdes, florestas e até megalópoles. Nada pode pará-la. Nem mesmo o vento é capaz! Que toda vez se submete a ela, provando que é mais fácil se juntar quando não se pode vencer.

E lá vem ela. Negra, grotesca, colossal, torrencial. Chutando casas, levantando telhados, derrubando árvores, vindo em enxurradas, varrendo tudo o que encontra pela frente. Quando ela se arma, parece que o resto do mundo inteiro para. Esperando, aguardando, ansiosamente, temerosamente, timidamente, pavorosamente, seu encontro inevitável. Fatídico! Seja em alto mar ou terra firme, sejam navios imensos ou montanhas milenares, não há ser vivo ou inanimado que não a respeite, que a tema.

... e lá foi ela. Intocável, magnânima, grandiosa, seguida pela bonança. Deixando para trás ruas mais limpas, matas mais verdes, rios mais cheios e mares mais calmos. Devolvendo toda a água que fora tirada da superfície. Lavando o mundo e as nossas almas.


E. Straub

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Contos Natalinos


Para Luizinho, nenhuma data era mais importante e significativa que o Natal. Muito mais do que seu aniversário ou o dia das crianças. Pois no Natal, quem entregava seu presente não eram seus pais ou familiares, mas, sim, o Papai Noel. E ele nunca ouviu reclamação sequer do bom velhinho sobre estar sem dinheiro, que a economia estava em baixa, que a tal globalização, que nunca entendeu bem o que era, enriquecia os ricos e empobrecia os mais desafortunados. “Eu sou um desafortunado?” Perguntava à sua mãe toda vez que ouvia aquilo do seu tio Arthur, entre um drinque e outro.
Mas quem era Papai Noel? Essa pergunta, Luizinho respondia sempre de prontidão, já mostrando desde cedo seu tino comercial para a diversão de seus tios, que passaram natais a fio ensinando-o todas aquelas palavras. “Papai Noel é um velhinho que iniciou uma fabriqueta de brinquedos há muito tempo atrás lá no Polo Norte e que quando a coisa apertou teve que contratar uns duendes a preço de banana pra ajudar ele!”
Agora, se tinha uma questão de que seus tios se esquivavam era quando ele perguntava como o Papai Noel conseguia entregar todos os presentes numa única noite. Ele sempre se intrigava com isso, mas ele logo esquecia, afinal, o importante era seu brinquedo chegar. Não um brinquedo qualquer, mas um que ele passava o ano inteiro sonhando, desejando, mas que sempre mudava de opinião no início de dezembro, quando os comerciais de televisão bombardeavam incessantemente sua imaginação.
Quando era menor, digo isso até uns dois anos atrás, o Natal sempre chegava de forma inesperada. “Hoje é Natal!” Dizia sua mãe para ver seu filho pular de alegria. Uma alegria contagiante, mágica. Então ele cresceu e aprendeu a contar os dias na escola. “Mãe, precisamos nos preparar, já está quase no Natal!” Costumava alertar em meados de novembro. Ele era um menino muito impaciente. No dia derradeiro, ele esperava ansiosamente pelo momento da entrega dos presentes como se não houvesse nada entre ele e seu mimo. Quase não conseguia comer e se pudesse, deixaria de respirar também. Uma vez sua avó o viu roxo, tremendo, perto da árvore de Natal e se assustou. “Menino, você está roxo!” E só então ele liberou o ar e se lembrou de respirar.
No entanto, havia Natais mais fartos que outros, mas aqui seus tios, meio sem jeito, falavam que talvez naquele ano ele não fora tão bonzinho. “Mas eu fui bonzinho!” Dizia Luizinho entre lágrimas mesmo sabendo que sua afirmação não era assim, digamos, tão verdadeira. Luizinho passava o ano inteiro fazendo travessuras, mas quando o Natal se aproximava, ele parava de aporrinhar sua irmã ou de fazer chacota das outras pessoas.
Já disse que o garoto era ansioso, não? Pois bem, de tão ansioso e insistente, para não dizer chato. No ano anterior, fora decidido que Luizinho não mais ficaria na sala no momento em que seus pais e tios tinham de apagar a luz e dar uma de David Copperfield colocando trinta presentes no recinto em questão de minutos. Tudo isso cantarolando músicas natalinas para esconder o barulho dos tropeços e dos móveis sendo arrastados de lá para cá. Mas após a entrega, se a entrega fosse bem feita e querida, o menino se acalmava e ia brincar feliz. E só então se lembrava de correr para a janela e olhar para fora na esperança que estivesse nevando.
Todo ano ele ajudava sua mãe a montar a árvore de Natal, mas seu intuito era o de sempre pedir para sua mãe escrever sua cartinha de Natal e para ser o primeiro a pô-la embaixo da árvore. No entanto, esse ano Luizinho resolveu fazer diferente. Afinal, ele já era grande, tinha se dedicado 1 ano inteiro a aprender a ler e a escrever, por isso, decidiu que ele mesmo escreveria para o Papai Noel. E mais, decidiu escrever e enviá-la por correio para que o bom velhinho tivesse tempo de confeccionar seu desejo. “Agora só preciso descobrir onde ele mora!” Teria dito.
O tempo passou, o Natal chegou e como todo ano, sua mãe seguiu o protocolo à risca ao levar ele, sua irmã e seu relutante pai para ver a linda decoração de Natal dos shoppings centers. Luizinho se transformava com todas aquelas luzes mil, com bolas coloridas espalhadas por todos os cantos e algodão, simbolizando a neve, para dar uma maior alusão ao Natal. As vitrines das lojas eram umas mais bonitas que as outras. Os olhos, por muitas vezes, não sabiam mais para onde olhar. Tinham umas que até eram robotizadas, com um Papai Noel mecânico acenando feliz para todos. Mas a vitrine que ele mais gostava era o da loja de brinquedos. Passava horas ali, se torturando e analisando cada possibilidade. ‘Será?’
Mas como todo passeio tem que terminar, aquele também tinha destino certo: um hall bem amplo no centro do shopping. Havia um rinque de patinação antes, mas os lojistas pensaram em coisa bem melhor para aquele Natal, mais rentável, diga-se de passagem. Construíram, sem se importar com gastos, parte da região do Polo Norte que abrigava a casa do Papai Noel. Aliás, a decoração fora caprichada naquela área. Havia neve e gelo por toda parte, e o ar condicionado era deixado bem frio naquela região do shopping para que as pessoas se sentissem realmente nas redondezas da casa do bom velhinho. Havia, também, felizes duendes de madeira espalhados por toda parte e renas improvisadas de cavalinhos de brinquedos, que, além de puxar o trenó fictício do Papai Noel, também serviam de montaria para toda a garotada.
“Vá pedir seu presente ao Papai Noel!” Disse sua mãe ao verem Papai Noel acenando sentado de sua cadeira com uma criança no colo. Uma fila enorme se formava e a irmã de Luizinho, menor que ele, não perdeu tempo em correr e se enfiar no meio da multidão.
“Ele não é o Papai Noel, ele é só um homem... e aqui também não é o Polo Norte!” Respondeu o sabido Luizinho.
Ele ficou ali de longe, observando a confusão enquanto sua mãe se entretinha com o presépio montado ali perto. Luizinho não entendia do por que as pessoas misturavam religião com Natal. ‘Não tem nada haver!’ Pensava ele ao lado de sua mãe, curioso sobre o presente que os Três Reis Magos vinham carregando em suas mãos.
“Luizinho, vá ver sua irmã e não desgrude os olhos dela!”
Luizinho foi, e foi com boa vontade, afinal o dia derradeiro era o dia seguinte e ele não poderia cometer um único deslize sequer, nem mesmo roubar na calada da noite os papais noéis de chocolates que sua mãe sempre pendurava na árvore de natal. Mas ao observar a multidão em fila, tentando falar com Papai Noel, seus olhos sequer se voltaram para sua irmã, que era convidada a se sentar no colo do bom velhinho para levar um dos leros mais sérios que já tivera em sua vida. Aconteceu que a neve que ele achou que fosse neve embaixo da cadeira do Papai Noel, não era neve, era uma montanha de cartas e essas cartas se espalhavam aos montes por todas as partes.
‘CARTAS!’ Luisinho suou frio como nunca havia feito em sua vida, seus olhos esbugalharam e sua cabeça doeu. ‘Minha carta!’ Nervoso e tentando por a culpa em alguém, Luisinho lembrou de que havia se esquecido de por a carta no correio e agora não havia mais tempo. Desesperado, correu para uma montanha de cartas qualquer para crer no que seus olhos viam. Umas mais magras, outras mais gorduchas... devia ter muitos brinquedos escritos ali, pensava sempre ao ver um envelope. Mas o que fazer? Ele não sabia, estava com medo de não ganhar nenhum presente aquele ano. Aliás, aquilo estava fora de cogitação, pois se perdesse aquela oportunidade, teria que esperar mais um ano para ganhar alguma coisa.
 Correndo ele foi ao encontro da sua mãe. “Mãe! Me dá uma caneta?” A mãe estranhou a palidez do filho, mas procurou na sua bolsa e deu-lhe uma. “Você está bem? Onde está sua irmã?”
“Já venho!” Deu as costas e saiu correndo.
Ele estava cego, tremendo, com medo. Nem viu sua irmã dar um beijo no rosto do Papai Noel. Se tivesse visto, teria ganhado um pirulito também. Mas isso não importava, ele correu para aquela montanha de cartas com a caneta na mão. Ele nem sequer a testou antes para ver se estava funcionando, tinha que funcionar. Então ele mexeu e remexeu naquela montanha, suando frio, com medo de que alguém estivesse olhando, com medo de que aquele falso Papai Noel se levantasse da cadeira para perguntar o que estava acontecendo. Era agora ou nunca, sua única e última oportunidade. Luizinho foi metendo a mão e logo escolheu uma carta, uma daquelas gorduchas. Olhou para os lados, desconfiado, e rabiscou o nome da criança que havia escrito aquela carta para escrever o seu por cima, do jeito que deu. Nem sequer colocou-a no chão para escrever, apoiou no joelho mesmo e escreveu. Depois chafurdou sua carta no interior daquela montanha e deixou-a lá.
Ele olhou para os lados novamente e ninguém vira. O mundo saiu de suas costas, sorriu e carregou-o. Pronto! Agora era só esperar. Ele estava muito feliz, radiante. Não sabia o que tinha na carta, mas não importava, o importante era garantir o seu. Nem pensou na outra criança que poderia deixar de ganhar seu desejo.
E ao chegar perto de sua mãe para devolver a caneta, a mãe perguntou. “Onde você foi Luizinho? Estávamos te procurando por todos os cantos!”
Luizinho olhou para sua irmã e ela estava com uma cara de delatora. Ficou com medo. Será que ela vira? Mas aquela cara ela sempre tivera e como ninguém falou nada, ele retrucou.
“Sabia que eu te amo, mãe?!” Sorriu para ver sua mãe também sorrir e passar a mão na sua cabeça.
O mundo estava cor-de-rosa outra vez.

E. Straub
(Feliz Natal e qualquer semelhança é mera coincidência)

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Um Filho da Noite


Num quarto escuro, decorado por uma coleção velha de ursos de pelúcia, livros, CDs e posters de bandas de rock, um notebook ainda em funcionamento, ao lado de um porta-retratos em cima da escrivaninha, indicava um e-mail não enviado. A sua frente, uma silhueta imóvel, angelical, relia em voz baixa, para si mesma, as linhas ali escritas.
“Oi Jú! Como está por aí? Praia, Sol... nada mal não?! Bem que eu devia ter deixado os trabalhos um pouco de lado e ter ido com você e a Rê...  
O tempo por aqui está bem ruim, desde sexta-feira que tem caído aquela garoazinha fina e chata que só chove e não molha. Além disso, está fazendo muito frio por aqui. Vi o termômetro hoje na rua e estava marcando 11 graus, mas a sensação é de bem menos. Aiii amiga... pena que você foi viajar, poderíamos estar nos divertindo juntas ou pelo menos não fazendo nada, mas juntas... estou com tanto medo... é que a luz acabou outra vez e como ainda é cedo para dormir, pensei em entrar na net para me distrair um pouco e deixar o tempo passar. Acho que sempre tive medo de ficar sozinha e ainda mais no escuro!
Eu até tranquei a porta do meu quarto agora. Meus pais também viajaram e eu fiquei aqui sozinha. Na verdade eu ainda estou tensa, estão acontecendo umas coisas desde sexta-feira que estão me deixando com muito medo, mas olha só, vou contar para você e aí você me diz se estou ou não pirando. Na sexta-feira, depois da aula, eu voltei para casa e fui para a academia.  Estava lotada e até então tudo bem, eu fiz tudo o que eu tinha para fazer e desci para ir embora. Coloquei meu casaco e quando pus o pé para fora da academia, eu ouvi alguém me chamar. Olhei para trás e não vi ninguém, mas quando eu virei para continuar andando, eu ouvi de novo. Me virei bem rápido, pois já estava assustada, e não consegui ver ninguém de novo. Tinha muita neblina. No começo achei que era coisa da minha cabeça para variar, mas aí, lá longe eu vi um cara todo estranho debaixo de um poste de luz. Ele tinha um chapéu e um casacão. Acho que era um sobretudo ou uma capa, sei lá.
Acontece que fiquei encarando o tal sujeito um tempo e, de repente, senti um calafrio. Fiquei com medo, pois achei que o cara fosse um assaltante e quando tentei correr para dentro da academia de novo, não sei porque, mas meu corpo inteiro travou. Não conseguia mais me mexer de tanto medo. Isso nunca tinha acontecido comigo antes, nem mesmo daquela vez que eu estava andando de bicicleta e aqueles dois cachorros saíram correndo da casa da velha e vieram com tudo pra cima de mim! Mas voltando, então, meu corpo travou e para piorar a rua estava deserta. Não tinha ninguém! Só eu e o cara lá longe. Mas daí, o cara começou a vir devagar na minha direção. Eu não conseguia ver ele direito no começo, mas conforme ele foi se aproximando, pude ver sua silhueta no meio da neblina. Aliás, muito estranha essa neblina, já moro aqui faz 7 anos e nunca tinha visto um dia assim.
De qualquer maneira eu queria correr e não conseguia e ele chegando cada vez mais perto, aí eu resolvi gritar, mas minha voz não saía. Meu... eu fiquei muito assustada naquela hora... e o cara chegando e chegando, mas mesmo assim eu ainda não conseguia ver seu rosto, mas eu vi que ele era bem magro e era meio corcunda também, mas o que me aterrorizou foram os olhos vermelhos dele. Bem sinistro o cara! De repente, quando eu já estava chorando de desespero, meu corpo destravou e eu subi correndo para a academia. Meu, mó mico, mas na hora eu nem pensei, cheguei gritando e todo mundo desceu comigo para ver o tal cara, mas até aí ele já tinha ido embora. Pior que eu liguei para casa para o meu pai vir me buscar, mas foi só ali que eu descobri que eles tinham ido viajar e nem me avisaram. O que me restou foi tomar coragem e ir embora para casa sozinha. Para variar estava sem carro, então tinha ido para a academia de bicicleta.
Mas ainda bem que não aconteceu nada na volta, mas você acredita que quando cheguei em casa ainda tomei um baita susto. Ouvi um barulhão na janela do meu quarto e me lembrei do cara na hora. Aí, eu fechei o vidro da janela e subi a persiana para ver o que era e tomei um susto maior ainda, era um morcego enorme que estava rodeando a minha casa e de vez em quando ele vinha e batia na minha janela. Desci a persiana, cobri minha cabeça com o cobertor e até rezei para que nada de mal me acontecesse (E se estou te escrevendo agora é porque todas as minhas preces foram ouvidas rsrs).
Nem preciso te falar que sonhei com um monte de coisas ruins né... sonhei que eu ia mal na prova, sonhei que meus pais despencavam com o carro de um penhasco, sonhei até com aquele cara... sonhei com os olhos daquele cara... mas graças a Deus a hora que ele apareceu no meu sonho eu acordei e já era de manhã! Não conta pra ninguém, mas eu acordei toda molhada, minha cama estava uma sopa e eu tive vontade de chorar. Demorou um bom tempo para eu esquecer aquela história, parar de tremer e aproveitar um pouco do dia. Mas cada vez que eu olhava no relógio e a noite se aproximava, meu medo vinha junto. Aiiii amiga... por quê você não está aqui? Meu, que medo. Só sei que nem saí de casa esse dia, jantei mais cedo, tranquei a casa inteira, fechei todas as janelas e me tranquei no meu quarto debaixo das cobertas para ficar vendo TV e esperar o sono chegar.
Ainda bem que nada de anormal me aconteceu nesse dia, exceto pelo morcegão que fica rodeando minha casa agora. Mas acho que eu e ele estamos nos tornando amigos rsrs. De qualquer maneira acordei super disposta hoje e apesar do Sol não ter aparecido, a chuva deu uma trégua e, a tarde, eu resolvi sair um pouco de bicicleta. Ainda estava muito frio, mas eu me agasalhei bem. No final das contas acho que estava precisando disso, porque estava tão gostoso andar que eu até perdi a noção do tempo. Tanto que quando eu dei por mim já estava quase escurecendo e eu estava um pouco longe de casa. Ai, como sou burra Jú. Vim o caminho inteiro dizendo isso para mim mesma. Pior que como é feriado não tem ninguém na rua... mas como diz aquele ditado antes só do que mal acompanhada, em outras palavras, preferia estar sozinha que com aquele cara bizarro. Aliás, eu via o rosto dele em tudo que era canto. Impressionante o que nossa mente faz com a gente quando estamos com medo.
Cheguei em casa sem problemas, mas aí outra coisa estranha aconteceu. A janela do quarto da minha mãe estava toda escancarada, com o vidro estilhaçado. Eu fiquei com muito medo que fosse aquele morcegão que tivesse entrado, tanto que eu peguei uma vassoura na cozinha e quando fui acender a luz, descobri que não tinha luz. ‘Mais essa agora!’ eu pensei. Estava com frio, morrendo de medo, cansada, com um morcegão podendo estar dentro de casa e sem luz. Ainda bem que estou com o meu celular velho e tem uma lanterna nele. Ele não tira foto, mas pelo menos tem uma lanterna rsrs. Fui subindo as escadas e meu plano era de sair correndo quando chegasse no andar de cima e ir direto para o meu quarto. Vim bem devagar e saí correndo gritando rsrs. Entrei no meu quarto, tranquei a porta e cá estou te enviando esse e-mail. Viva a tecnologia moderna rsrs . Nada que com um notebook e um wirelees a gente não resolva. Bom era isso, espero que você esteja se divertindo por aí, porquê eu não vejo a hora desse feriado acabar!
Beijos amiga!
Obs.: No próximo feriado vou querer ir com certeza com você! Muito melhor ficar aqui... aliás tem tanta gente estranha que fica por aqui e não vai viajar...”
Num quarto escuro, decorado por uma coleção velha de ursos de pelúcia, livros, CDs e posters de bandas de rock, um notebook ainda em funcionamento, ao lado de um porta-retratos em cima da escrivaninha, indicava um e-mail não enviado. A sua frente, uma silhueta imóvel, angelical, relia em voz baixa, para si mesma, as linhas ali escritas. Nunca imaginaria que à suas costas dois olhos fundos, de cor avermelhada, pairavam sobre ela. Uma criatura bizarra, curva, de pele esbranquiçada, observando seus últimos instantes.


E. Straub

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Leleco

Mais um dia na praia do Coquinho! Sol escaldante, merrecas força barra, metade dos banhistas na água e a outra metade se espremendo e querendo entrar. Na areia, quente e branca, onde guarda-sóis se aglomeram por toda parte, gatas circulam e desfilam por toda sua extensão enquanto que os marombados se concentram em apenas um. O verão ia a pino e aquela praia em forma de ferradura do litoral norte paulista fervilhava no ritmo das férias escolares.

“Leleco?! Põe o guarda-sol para mim?” Uma gata suplicava já fazia algum tempo debaixo da torre salva-vidas de onde Leleco observa atentamente aos que se aventuram mar adentro. Prezando a vida das pessoas que buscam relaxar em mais um dia abençoado. Bom... isso era o que as pessoas pensavam, pois as potentes lentes de seu binóculo não apontavam para os garotos endiabrados driblando suas mães em direção ao mar ou mesmo para aquela velha senhora que não fora alertada que aquela praia era praia de tombo, mas sim, direto para o line-up, onde cada onda era disputada no braço, bico por bico.

“Hã?!” Ele olha para baixo na milésima vez que a garota tenta falar com ele, entre uma série e outra.

Havia pelo menos outras 4 torres salva-vidas ao redor da praia, mas aquele pedacinho, em especial, era o mais cobiçado. Se a ondulação vinha de Sul e o vento de leste, e quando o fundo ajudava, as ondas ficavam de gala e era exatamente estes momentos que Leleco aguardava do seu “ponto de observação”, como costumava falar. Cara gente fina, sem rixa com ninguém, tinha os olhos sempre voltados para o mar, sua grande paixão.

“Xá cumigo!” Num pulo, se jogou do alto da torre para se espatifar na areia.
“Você está bem? Por que não desceu pelas escadas?” Perguntou a incrédula garota.
“Podicrê! Achei que já tinham instalado meu corrimão de bombeiro... essa de salva-vidas não é fácil, né!” Disse para arrancar suspiros de suas observadoras de plantão.
“Ei Fiel!” Alertou. “Dá um grau aí que eu já venho!”
‘Você disse Fiel ou Fidel?’ Um cão de orelhas caídas olhava para trás para ter certeza que era realmente com ele. ‘Epa! Parece que ouvi errado meu nome de novo!’ Corrigiu sua postura latindo de prontidão. Fidel, assim como Leleco, também amava o mar, mas ao mesmo tempo temia ele.

“Leleco?! Aqui!” A gata, já se sentindo esquecida novamente, sinalizava para o salva-vidas que dialogava com um cachorro.

Leleco deu alguns passos no meio de tanta gente e fincou com firmeza o guarda-sol na areia sem ao menos ver onde o fazia e ouvir o grito de dor de algum desavisado de plantão que se enterrara na areia para tirar um cochilo.

‘Preciso voltar para o observatório!’ Pensou no que seria um ato de responsabilidade se referisse como seu observatório o local para zelar pela segurança de todos e não um local para observar as condições de surf. Acontece que mal deu 3 passos e outra gata o parou com o mesmo propósito, mas com outra tática.

“Leleco! Passa protetor nas minhas costas... eu não consigo sozinha...”

A gata, que bebericava um suco de limão que deixava numa mesinha ao lado, se virou de costas e retirou a alça superior do biquíni. Por sua vez, Leleco se ajoelhou e começou a passar o protetor em suas costas. “Ai... como está bom... que mãos firmes vc tem Lelê!”

“Bote fé!” Dizia ele que não desgrudava os olhos da seriezinha que estava entrando no outside. E se não bastasse tudo aquilo, não é que ainda pintou um moleque de nariz escorrendo pedindo ajuda ao nosso salva-vidas para que ele o ajudasse com o leash?! Leleco não teve nem dúvidas, amarrou o leash no pé do moleque e já se levantou como quem diz “Chega!” e saiu antes mesmo de ouvir um “Fica mais um pouquinho!” da garota que logo em seguida proferiu um monte de palavras de baixo calão ao moleque, que saiu correndo para a água, mostrando a língua para sua agressora e sem entender nada.

Acontece que na pressa de ver a galera surfando, Leleco acabou passando o leash por baixo da mesinha de plástico que apoiava o suco de limão e quando o moleque saiu correndo, o suco veio abaixo em cima da garota, queimando sua linda pele bronzeada. Mas Leleco nem percebera o equívoco, pelo contrário, estava feliz e livre de qualquer culpa.

“Fala Fiel!” Disse chegando ao seu posto. “Ué?! Quem colocou minha faixa de ausente embaixo da torre?” Perguntou olhando para seu cachorro, esperando uma resposta mais clara.

‘Não vi ninguém?!’ O cão saiu farejando todos os cantos da torre e nem viu que Leleco subia correndo as escadas sem tomar qualquer providência quanto a faixa.

O tempo passou e logo o estômago de Leleco roncou. “Aii que fome?! Cadê meu rango?” Esse era o único momento que ele largava seu binóculo de livre e espontânea vontade. Fidel que não era bobo e nem nada, já percebendo a movimentação, subiu correndo para ajudar com a boia. ‘Por que ele procura o almoço se ele deixou em casa?’.

Leleco procurava em todos os cantos, mas logo a resposta veio quando sua mãe apareceu com uma quentinha. “Meu filho! Você esqueceu o almoço outra vez, mas não se preocupe, eu trouxe uma que eu acabei de fazer!”

“Valeu mãe!”
‘Ahá!’ Fidel abanou o rabo dando duas latidas. ‘Leleco é muito esperto. Eu também odeio comer comida fria!’

Após o almoço seguido de uma pestana com direito a cafuné da mamãe, Leleco acordou e foi observar a movimentação da praia. Aparentemente tudo calmo. O tempo passava rápido, as crianças levavam uns capotes no quebra-coco, a velha tinha perdido o maiô do ano de 1900 no mar, a série entrava preguiçosa... até que de repente, uma histeria coletiva toma conta da praia. Até aí tudo bem, Leleco não deu muita importância por achar que se tratava de um arrastão. Ele já vira muito disso na TV e sempre ouvira que isso causava pânico entre os frequentadores da praia, mas até então ele achava que arrastão nada mais era que passar a rede para pegar algum peixe no mar, então ele nem deu bola. Continuou olhando o mar com seus binóculos e só percebeu o que realmente as pessoas queriam quando elas se aglomeraram em volta de sua torre clamando por ajuda.

Aquela velha senhora, que perdera o maiô, havia sido sugada pelo mar e agora estava em maus lençóis de água salgada. Vez ou outra se via a cabecinha da velha tentando respirar e seus braços a agitar desesperadamente. Fidel latiu alto e Leleco num ato heroico pegou sua prancha de surf e saiu correndo em direção a água sob o olhar atento de todos. As garotas suspiravam vendo-o passar. Leleco se atirou na água e remou furiosamente em direção à velha, mas eis que de repente algo tira a concentração do nosso herói. “Olha que esquerdinha, Brow... tá pra mim!” Leleco nem titubeou, virou sua prancha e dropou no que considerou a melhor onda do dia.

A cada paulada de backside na cara da onda ele via a galera vibrar na areia e isso dava a ele cada vez mais confiança. Ele foi quebrando a onda de todo o jeito e até achou um tubinho apertado chegando no inside, saindo com água batendo em suas costas. “Uhhhhuuuuu!” gritou. E quando passou um helicóptero por cima de sua cabeça ele pensou se tratar de algum fotógrafo de alguma revista de surf qualquer. “Caraca! Vou ficar famosão!”

A galera ia indo mesmo a loucura quanto mais perto da praia ele chegava, tanto que quando ele chegou veio todo mundo correndo para cima dele e ele já se imaginou sendo erguido. Mal notou a expressão de raiva nas pessoas. E quando todos se juntaram em cima dele, veio uma voz parecida com um trovão, vinda lá de trás, e o que foi bom, pq a galera se dispersou. “Leleco!”

‘Ixxiii?!’ Pensou. ‘Lá vem o Bomba.’ O Bomba era o chefe dos salva-vidas, bom com as bombas, bom com as gatas e zero de surf. Além disso, costumava falar gritando com quem achava ser inferior a ele.

“Leleco, seu cabeça de parafina! Onde você estava? Quase que essa moribunda se afoga na minha praia!” Esbravejava apontando para a pobre senhora que já recebia atendimento fora da água.

Fidel interveio prontamente com latidos e rosnadas. ‘Sua praia?! Não sabia que aqui tinha dono!’

“E o que é esse cachorro aqui na praia?” Perguntou o Bomba encarando Fidel.
“É o Fiel!”
‘Me segura que eu vou te morder!’ Dizia o cão se enroscando por entre as pernas do Leleco.
“Seu cão?! Não me admira essa parte da praia ser imunda! Agora some da minha frente e tira essa droga desse cachorro daqui da praia! Você não leu a faixa que eu mandei você colocar a semana passada na praia? Vai lá olhar!”
Leleco já tinha virado as costas com Fidel seguindo-o fielmente, mas ainda teve que ouvir. “E se amanhã você não estiver no seu posto ou se cometer mais uma falta eu vou te explodir e fazer sabão desse cachorro!”

“Vamos Fiel!” Disse apenas, enquanto que seu amigo teimava em morder de qualquer jeito o Bomba. ‘Como assim me fazer de sabão?!’ Indignou-se.
“Ufa! Que dia hein Fiel... vamos para casa?”

Os dois seguiam para casa e Leleco ia pesaroso, pensando se realmente cometera alguma falta, mas de repente alguém puxou conversa “E aí Leleco, altos tubos hoje?”

“Altos tubos não, mas eu dei altas batidas!” Pesaroso, mas nada que um bom papo de surf para fazer esquecer os aborrecimentos. Para completar, sua mãe havia lhe preparado seu jantar preferido. “Uau!!! Pizza de mozzarela, guaraná e DVD de surf!”.

“Mãe, você é a melhor!” Dizia entre um pedaço e outro, sem desgrudar o olho da telinha.
“Coma tudo direitinho Lelê, amanhã vc tem muito trabalho pra fazer e quero meu filho forte para cuidar das pessoas!”
“Podicrê!”
“Como foi seu dia hoje, meu filho?!”
“Meu dia? Ahhh O cara lá, o Bomba, colou na minha pra ver qual era, mas eu zuei geral e saí de rolê! Pior que a moribunda quase se foi!”
“Moribunda?” Perguntou a mãe que se esforçava, mas que nunca entendia uma palavra do que aquele seu filho queria dizer.
“Eh! Acho que era o nome dela!”

Fidel ergueu a cabeça admirando-o ‘Nome dela? Achei que se referiam ao estado em que ela se encontrava... mas se Leleco diz então deve ser! Leleco é muito inteligente, tenho orgulho de seguir alguém como ele!’

No dia seguinte o despertador não tocou. Leleco sempre se esquecia de colocar ele para despertar e por isso, mais uma vez, ele foi acordado pelo seu cão fiel, Fidel.

Os dois comeram o belo café da manhã preparado pela mãe de Leleco, “Saco vazio não para em pé!”, e foram para a praia, local de trabalho do nosso afortunado herói. “Ei Fiel?!” Disse ele se recordando do dia anterior.

“Tu vai ter que ficar de bituca por aqui!” Apontou para a calçada, embaixo da torre salva-vidas. “Se o Bomba te pegar ele vai fazer sabão de você e me explodir!” Leleco nem imaginava como o Bomba faria aquilo, mas tinha certeza de que ele faria.

Aquele dia ninguém apareceu na praia, nem mesmo o Sol. Apenas um mormaço com uma previsão de uma chuva fina para o final da tarde indicando a aproximação de uma frente fria. “Pior que nem trouxe meu casaco!” Dizia Leleco tiritando de frio.

‘Como o Leleco é determinado!’ Observava Fidel, que não ligava para o frio, na calçada, debaixo da faixa “PROIBIDO ANIMAIS NA PRAIA!”. ‘Nem essa garoa fina e esse vento gelado tiram ele das suas obrigações!’.

“Argh!” Leleco observava o mar com seu binóculo. “Mar tosco... muito vento... sem ondas... sem diversão... talvez aumente para amanhã... vou checar as condições!” Leleco entrou para dentro do seu observatório e decidiu que ficaria ali até seu turno acabar. Sua mãe havia instalado um verdadeiro quarto ali para que nada lhe faltasse. Tinha TV, som, computador, sofazinho, microondas, frigobar e até uma cama para que ele pudesse tirar um cochilo.

“Ei Fiel!” Gritou, pondo a cabeça para fora da janela e antes de se entocar indefinidamente. “Vai pra casa! Não posso te convidar para subir, pq o Bomba pode aparecer e fazer de vc sabão!”

Fidel baixou as orelhas e encolheu o rabo. ‘Ainda pego essa Bomba!’ Pensava em seu íntimo.

Leleco se sentou de frente para o computador e comendo a refeição que sua mãe havia feito acessava um site de surf. “Hoje tem WCT ao vivo!” Empolgou-se. Ele estava tão compenetrado que nem ouviu gritos abafados pela chuva. Para completar, os vidros da torre estavam completamente embaçados devido ao mal tempo.

Lá fora, no mar, havia um surfista que tinha passado despercebido pelo binóculo de Leleco e que agora se encontrava em apuros. Tivera uma câimbra na perna e agora não conseguia sair da água. Mas Fidel, que seguia para casa, ouviu seus gritos de socorro e correu de volta para a Torre Salva-vidas.

“Posso não conseguir salvá-lo, mas com certeza meu amo o fará!”

Fidel começou a latir muito alto do lado de fora e Leleco, por sua vez, assistia com preguiça o WCT enquanto almoçava. Ao perceber que Fidel havia voltado, ele abriu a porta e o chamou. “Vamos Fiel! Pra dentro antes que o Bomba faça sabão de você!” No entanto, Fidel abocanhou sua perna e o puxou até a areia. “O que você quer?” E Foi então que Leleco pode ver e ouvir o surfista em apuros. Ele nem pensou duas vezes, se é que ele pensa, e pegou sua prancha para se atirar no mar.

‘Já diziam que Deus escreve certo por linhas tortas!’ Analisou Fidel ao ver o mar sem ondas, pois inusitadamente Leleco nem prestava atenção ao mar devido as péssimas condições de surf e sim ao surfista em apuros. Mas chegando perto, ele olhou para o surfista e sentou na prancha, vendo-o se afogar.

“Aqui! Socorro!” Gritava o surfista em apuros. Mas Leleco coçava a cabeça. Ele não conseguia se lembrar o que deveria fazer a partir daquele ponto. “Joga a prancha!” Gritou o surfista e Leleco prontamente atendeu como se um estalo fizesse iluminar seus pensamentos.

Após o surfista subir em cima da prancha, Leleco trouxe o surfista são e salvo para a areia. Mas para o azar do surfista, Leleco tentou, ofegante, fazer uma respiração boca a boca, mas o surfista o empurrou para o lado e disse “Sai para lá jacaré! Eu tive câimbra e não afogamento!”
“Podicrê!”
“Pior que essa câimbra não passa!”
“Podicrê!”
“Ahhh!” Gritava o surfista tentando esticar a perna para fazer passar a câimbra. “De qualquer forma obrigado, você me salvou!”

Logo os dois estavam lado a lado, esbaforidos no meio da tempestade. Leleco o ajudou a levantar e foram em direção ao observatório.

“Por falar nisso, você viu minha prancha?” Perguntou o surfista que pelo que seus cabelos grisalhos indicavam, já ia lá para os seus 50 anos.
“Vi sim!” Respondeu Leleco. “Ela foi sugada pelo mar. E a essa altura deve estar na África!”
Um ataque de riso tomou conta do ambiente. “Ei você é legal! Qual o seu nome?”
“Leleco!”
...
“Bom, se você não pergunta eu digo o meu. Paulo!”
“Podicrê!”
Paulo observava Leleco que até o momento não tinha parado de olhar para o mar. “No que você está pensando?”
“Que amanhã vai estar grande mesmo!”
‘É isso aí?! Meu amo é um profeta nato!’ Fidel corria para lá e para cá, latindo para o vento.


E. Straub